26/08/2012

Morrer na vilazinha

Como um poema que se fez qualquer, em chão de gentes,
estava bela a tarde e os pássaros inda cantavam sem motivo.
Inda as árvores revoltosas se tremiam contra o vento
o vento que veio do leste, vento-leste que trouxe a discórdia
das árvores...


Inda as crianças brincavam nas ruas
frente as casas  - suas casas - com seus pés
fudidos e descalços
tal qual bolhas (que as crianças são como bolhas de sabão,
transparentes,
e ao deixarem a boneca no chão é como se explodissem,
se desmantelasse a estrutura da bolha, tão complexa
estrutura da bolha) de sabão.

E como um poema que se fez qualquer, em chão de gentes,
ouvia-se o murmúrio das águas, o canto das pretas
(que era um só em vozes
várias) e o cavalo puxava carroça sem odiar o dono
que o dono era velho mas tinha braços fortes,
e nunca faltou comida pro cavalo comer.

O vento-leste a esta hora estava lá,
só que estático,
como um poema. Foi quando sentei-me
numa cadeira qualquer
que me jogaram,
e vi as horas o tempo as coisas

vi o rio que passava por lá quase imperceptível aos olhos
e vi o rio que passava por nós,
dentro de nós (bem
no meio), que desaguava em nós
num gesto
num poema que se dá de graça. Que se dá...

Vi uma mãe protegendo um filho numa atitude boba,
inútil, (quase
infantil) de quem não aceita perdê-lo
pra um mundo e
ri como um louco
ri como um miserável como um vagabundo
como um bicho ri...

Não conheci a morte
a morte não conheci.

As pessoas aqui tem olhos
mas não me olham...
pra que me olhar se há o rio
o sol os bichos?
Pra que me olhar se sou como nada,
se sou só alguém sentado
numa cadeira de palha?
Já então corrijo: a cadeira é de palhas e não de palha,
que cada palha é uma palha diferente
com seus jeitos e manias que a tornam única.
Numa cadeira de palhas, fica então.

E logo anoiteceu na vilazinha...

As casas já se trancavam, lentamente, com a calma que existe lá.
Virei a esquina, fui indo pela estradinha de terra, lento, tão lento
que parecia ficar... mas eu ia...
da cadeira de palhas dei-me até
tchauzinhos e me disse: adeus...
Mas como fui, se

fiquei? como é possível isso? e enquanto
me perguntava naquela cadeira de palhas o meu
ser cada vez mais longe cada vez mais longe
o meu ser
se desintegrando e
mais longe, cada vez mais longe,
e longe... de entender desisti
- é assim que se morre aqui,
tentando entender as coisas...

E nunca mais me lembro de ter retornado àquela vilazinha
- onde permaneci, sentado,
calado,
me esperando
voltar pela estradinha de terra.

A estradinha de terra vira ali e acaba nunca...
Quantos anos inda viverei meus anos? Inda quantas
curvas pra findar esta vida curva?
A cadeira de palhas é confortável...
Bem confortável essa cadeira de palhas...
Como seria morrer na vilazinha?
Ah! queria tanto,
morrer na vilazinha...


~ Publicado na antologia de poemas "Versos Soprados Pelos Ventos do Outono - volume I" // Selecionado no "1° Concurso de Poesias da Big Time Editora"  ~

9 comentários:

  1. Belo texto; parabéns! Uma semana maravilhosa pra ti!

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  2. Acabo de visitar o seu Blog e gostei do que vi e li!
    Muito sucesso!
    Abraço do ZÉ

    http://poesiacomemocoes.blogspot.pt/

    http://nocaminhodasemocoes.blogspot.pt/

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  3. Olá André!
    Obrigado pela visita e mais ainda por seguir o meu blog "Escrever pra viver".
    Gostei bastante do seu trabalho e já estou seguindo também.
    É sempre bom poder trocar ideias e experiência com quem escreve. Voltarei sempre.

    Estou preparando um material novo, volte em breve.

    Vamos manter contato.
    Grande abraço,
    Eduardo Humbertto

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  4. olá..
    vim agradecer a visita e conhecer por aqui..
    gostei!
    uma boa semana para ti..
    abraço.

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  5. Na Vilazinha morrer
    Que tão grande tristeza
    Longe esteja de acontecer
    Quando partir não esquece sua beleza!

    A vida ser muito bela
    Com ela feliz se viver
    Debruçados na janela
    Para o sol ver nascer!

    À tardinha novamente
    Para ver o sol se por
    Com carinhos e beijos contente
    Nos braços apertadinhos do amor.

    Obriga pela visita.
    Boa segunda-feira, com muita inspiração.
    Um abraço~
    Eduardo.

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  6. oi amigo, obrigado pela sua visita, por se ter tornado meu seguidor, tou retribuindo...
    Ainda vim pedir o seu favor, eu estou procurando quem divulgue meu blog porque daqui a 15 dias eu vou estar nas aulas estudando e nao terei muito tempo para vir ao blog, só mesmo o tempo de escrever meus poemas e se eu nao tiver visitas, nem os meus poemas irei escrever, por isso queria pedir a tua ajuda.. pode divulgar meu blog na sua barra lateral por favor?? prometo divulgar o seu na minha lista de blogs, será um prazer acrescentar mais um , por agora tenho 3, mas espero que em 15 dias que passarem consiga pelo menos 50 para manterem o meu blog activo

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  7. eu segui seu blog aqui no .pt. no .com.br nao da para seguir...
    eu vou divulgar o seu blog do .com.br no meu blog ok???

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  8. Olá!!!

    Obrigada por sua visita, vim retribuir e lhe seguir também!!!

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  9. Bellos textos, con tu permiso me quedo para seguir tus publicaciones!
    Abrazos desde Uruguay!

    http://perfumederosas-cristina.blogspot.com/

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