15/12/2013

As rachaduras

Lá vai Dona Mirtes, pincel em riste, dar mais uma mão de tinta à sua casinha de três cômodos. É a terceira pintura só este ano. Com um filho preso, outro casado e o marido no boteco o serviço da casa fica todo pra ela. São apenas três cômodos. Dona Mirtes (sessenta e cinco anos, nenhum sonho) desta vez escolheu a cor amarela, mas quem se importa? O primogênito casado, mulher e filhos, nunca pode vir; o caçula preso, segundo ano, assalto à mão armada; o marido bêbado, sempre bêbado, violento às vezes. Essas malditas rachaduras! diz, se rindo  ou terá sido: Essas rachaduras malditas!? Estranho... Os fatos acabam de acontecer e já não me lembro. Mas o risinho foi esse mesmo: amarelo como a tinta, como o domingo, como a vida. Segundo Dona Mirtes (sessenta e cinco anos, pouquíssimos sonhos), elas, as rachaduras, sempre dão um jeito de voltar. Cada vez maiores, mais perigosas. Se não pinto acabam me engolindo, explica. Pobre Dona Mirtes (sessenta e cinco anos, todos os sonhos do mundo)... Ainda não aprendeu a lição, a simples lição que um dia, numa manhã mais azul, seja talvez a única moral que arrancaremos de sua pobre fábula: Pintar a casa não resolve o problema das rachaduras.

A. F.