04/09/2014

Hecatombe

É quase noite na
Rua Pau Brasil.
É quase hora de descer
a musa
— a grande musa
atômica.

Tiro as roupas, tranco

as porta: ela não tarda
a descer, e se me pega
ainda vestido:
— Darling, darling,
ainda escondido nesta
fantasia estúpida?!

Toda noite jogamos

intermináveis partidas
de xadrez, e enquanto
fujo de seu cavalo ou
bispo, ela sussurra:
— Darling, darling,
você me pertence,
per omnia saecula...

Se abro os olhos (depois

da eucaristia)
enquanto ela me beija,
e busco, nos olhos dela,
alguma nesga de piedade,
só encontro sombras
(e aumento um grau
minha miopia)...

— Quando é que acaba
esta guerra? pergunto,
em lágrimas, enquanto
ela me chupa. A musa
atômica sorri (o sorriso
que há de matar-me
antes dos vinte)... 

— Ora, darling, quantas revoluções

cabem num poema? depois me toma
à força... e como zomba, a malvada,
de minha resistência inútil...

Pela manhã mamãe arromba as

portas do meu quarto devastado,
desvira a cama e a escrivaninha,
recoloca os livros na estante e as
minhas partes espalhadas no
tapete,

e me costura, pedaço a pedaço,

fígado aqui, sexo ali, coração
lá... e resmunga:
— É sempre, sempre assim:
toda noite esta hecatombe!

A. F.

5 comentários:

  1. Que hecatombe fantástica!
    Sua musa atómica o trucida vezes sem conta, o que vale é que as mães apanham sempre todas as pontas soltas! Ah mas aposto que tu adoras esses exercícios de tomada de posse....:-)
    Adorei!
    xx

    ResponderExcluir
  2. Originalíssimo! Poesia na melhor concepção da palavra.

    ResponderExcluir
  3. Muito bom!! Adorei. És um excelente poeta

    Beijos,
    http://mylife-rapha.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Sempre me surpreendo com sua escrita. Poesia de conteúdo, digna de representar os novos tempos. Abraços!

    ResponderExcluir