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07/11/2015

Mais populares que Jesus Cristo



* Imagem: Garry Winogrand (1928–1984)


[  ]

Deus não está morto
– porque Coke é Deus
e desce gostoso na garganta
enquanto a gente se mastiga.

(Mais populares
que Jesus Cristo
os nosso métodos
de tortura.)

Se eu te mostrasse
a materia
da poesia...
talvez você se matasse,
talvez tu me matarias...
talvez a gente beijasse
os pés da Virgem Maria...
talvez a gente brincasse
com a matéria da poesia.

Estamos nos torturando
desde o início dos séculos,
e o antes disso, meu bem,
éramos nós também.

Deus não está morto,
porque Deus são nossas bocas
undergrounds.

A. F.

27/05/2014

Tango para a nossa morte




Então dois corpos
tangam na noite:
esses segundos,
quem os fabrica?

Por trás das peles
estranhos fogos
— deus e o diabo
num beijo eterno!

Esses segundos
são mais que séculos,
entanto escoam

por entre os sexos.
Depois do tango
não há mais tempo.

A. F.

03/10/2013

O Enforcado


No ano da Criação
um querubim sem pecado
 não se soube o motivo 
enforcou-se
na árvore da vida.

Eva, ao entender a metáfora,
abriu os olhos de Adão.
E Adão, de posse da visão,
quis ser deus e fornicar com Eva.
Por isso forçaram
os portões do Éden
e foram os dois, poetas,
abrir bordéis
e fundar filosofias.

Deus, para abafar o escândalo,
inventou demônios, espalhou profetas
e mandou cremar o corpo do suicida
e jogar suas cinzas nas águas d'Iemanjá.

Que ninguém nunca soubesse
por que suicidou
um querubim...


A. F.

21/09/2013

O autor desce aos infernos

 * Foto de Diane Arbus

Tal qual um esqueleto desmembrado,
o abismo dos teus olhos vou descendo.
Anjos nus vão imóveis ao meu lado —
é minha alma, algo pura, anoitecendo...

Onde foi que perdi meu brilho alado?
Em que parte do corpo fui perdendo
a fé e, feito flor, você, pecado,
nasceu, desabrochou e foi vivendo?

— Oh flor da minha vida, oh Razão
que guia meu calvário e é a igreja
onde fabricam céu e perdição!

Eu desço este abismo se deseja,
mas vou cantando baixo uma oração —
quem sabe Ele me ouça, Ele me veja.

A. F.

17/02/2013

Vinho de Missa


Estas pombas melancólicas no meu domingo
são os filhos que eu terei com a ultima virgem.
Um menino e uma menina, os vejo agora...
tão lindos!

- Como é bom ser cristão!

Mas, espere; sim, eu posso ver:
herdarão de mim os olhos
e, com eles,
minha maldição!
Por que isso meu Deus?...

Logo os dois, coitados... umas pombinhas tão lindas!...
É de dar pena.

                                                        A. F.
Ilustração de Felipe Corsini