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31/01/2019

Eu fiz nosso amor caber em 4 haikais


(Passado)
Anota meu número
para o caso
da gente se ligar

(Presente)
Eu curti até
aquelas tuas fotos ridículas
em Angra

(Futuro)
A gente pelo menos
ainda se abraça
nas fotografias

(Pretérito mais-que-perfeito)
Se tudo der errado
a gente se encontra
no link abaixo:

24/08/2018

Para nossa elegia

* Imagem de Sally Mann
Álbum: Family Pictures
(1984-1991)

Sente o cheiro? Vem de
nós, que apodrecemos.
Já somos o cadáver
que seremos.

Esses perfumes que eles
compram, embrulham e
nos dão não perfumam
anos e anos de podridão.
Não. A gente é imune.

Filhos da mesma sorte,
somos mortos pré-morte.
Só a decomposição
nos une  e o cheiro

forte. Não há choro,
vela, oração que pare
a putrefação. E sobre-
tudo: não há caixão
suficiente para tanta
gente por enterrar.

Uns ficam indigentes,
outros se lançam ao
mar, uns eternamente
ficam a sustentar seus
corpos semoventes,
outros tem que queimar

— quem foi inventar
que morto não sente?

A. F.

06/08/2018

O homem sem coração


*Foto de Daido Moriyama
in Farewell Photography

E logo agora ocê, Tereza,
quer discutir a relação?
Depois daquela sobremesa?
Com eu já de samba canção?

Deus me livre, só de falar
nessas coisas do coração,
eu já começo a me alembrar
do que vi na televisão.

Na reportagem um doutor
(dizem "bastante respeitado")
falava sem nenhum pudor
que o coração foi superado.

Numa cidade dos Estados
Unidos, um homem como eu
teve seu coração trocado
por de metal, e não morreu!

Sim, Tereza, fizeram isso
porque seu coração sofria,
se não de um desamor mortiço,
de alguma estranha anomalia.

É de longe a coisa mais feia
que ousaram os americanos:
trocar as carnes e as veias
por engrenagens, fios e canos.

Pensa naquele homem no leito
enquanto ia sendo operado,
aquele homem tendo o peito
completamente esvaziado...

Pensa naquele pobre homem
na mesa de operação:
tinha família, emprego, nome,
mas já não tinha coração.

E, dizem, quando despertava,
o peito inteiro costurado,
o falso coração já estava
por inteiro cicatrizado.

E assim o homem ia sendo
cada vez menos humano:
inda ontem ia morrendo
e agora era à prova de danos.

E a pior parte da loucura
eles guardaram pro final:
botaram ao vivo a criatura
do coração artificial.

E a pergunta que não calava
veio qual desfibrilador:
será que não se atrapalhava
agora nas coisas do amor?

Pelo contrário  disse, no ar —,
amo mais que antigamente,
quando tinha de carregar
um velho coração doente.

Agora amar é só o que faço
na vida!  exclamou, satisfeito 
e tenho muito mais espaço
que qualquer um aqui no peito.

E como se já não bastasse,
pra causar mais indignação,
disse ele, como quem gritasse:
mais amor, menos coração!

Tereza, é coisa que se diga
alto e em rede nacional?
Pode humilhar sem causar briga
órgão tão belo e... natural?

E ainda ecoa em meus ouvidos
a indelicada exclamação;
só pode mesmo ter saído
de um sujeito sem coração.

Mas, Tereza, a noite passa
e a gente aqui de falação.
Põe cá tua mão, minha devassa,
vem sentir minha pulsação.

A. F.

1º lugar no Concurso Poesiarte
 2018. O tema era "coração".


21/03/2017

Onde os garotos brancos dançam




* Imagem: Kids,
Daido Moriyama

Garotos
de 14 e quinze anos
vagueiam pelas ruas
da cidade iluminada
à procura de
qualquer coisa
leve.

Reparem nesses garotos
de 14 e quinze anos
que não pensam casar e
ter filhos, dois.
Que não aspiram
viver depois dos
30.

Eles não são os primeiros da

classe, nem
os últimos. Seus rostos não
serão lembrados ou
esquecidos  sequer
os fitaram.

Eles não criaram nada, nem
criarão. Não serão médicos,
operários ou funcionários
públicos.
Seus pais estão mortos e 
seus avós são
velhos demais para
dançar.

Atrás da igrejinha pro
testante,
eles abaixam as calças e
trepam. Garotos de
14 e quinze anos.

A. F.

22/03/2016

Iniciação



"Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!"
(Mario Quintana)


Tragam a noite espúria onde vive
o réprobo dos bichos e dos homens,
o que negou a paz dos lobisomens
ao se benzer nas águas do Estige.

Tragam corvos, chacais & prostitutas
(que hoje eu vou queimar, mas não sozinho):
não quero mais a musa, quero as putas!
não quero mais amor, quero mais vinho!

Amigos, peço, imploro, rogo, clamo:
tragam da veia mansa o teso mel,
o gozo que verteu em terra Onã,
o sangue que Caim tomou de Abel.

Vampiros, nossos filhos de amanhã.


A. F.



25/01/2016

Retrato da galinha enquanto morre


Uma galinha, que engraçada,
se derramando, e tão discreta
: sua natureza degolada
mantém algo de secreta
em sua morte desvelada.
Essa galinha é poeta.

Mas a galinha na calçada,
em sua forma de morrer,
parece não saber de nada
do que é ser ou é não ser.
Pobre galinha degolada,
sabe morrer sem nem saber.

Pobre galinha, degolada
bem antes mesmo de nascer.
Nesse cenário (a calçada),
toda encolhida (que engraçada),
achou sua forma de morrer.
Essa galinha é tudo ou nada.

E morre, e morre pra valer,
essa galinha, que engraçada.
O sangue jorra sem saber
o que é carne o que é calçada
nessa paisagem degolada,
nesse cenário que é morrer.

A. F.

02/12/2015

Éramos uma vez



1984-1991


* Imagem de Sally Mann
(1984-1991)

[1]

Éramos amarelos
como os canarinhos
e os girassóis.

Eu fazia a comida,
você alimentava
os dragões. Eu
escrevia os poemas,
você os queimava
na lareira.

Éramos um fogo só. 

[2]

Diziam, os vizinhos, quando
éramos amarelos,
que nossos olhos juntos
eram mais que o sol.

Deus sempre vinha
tomar uísque
em nossa casa
de bonecas.
(Éramos amarelos
e cristãos.)

[3]

Mas isso foi antes
daquele verde
nos seus olhos.

Era domingo
e na tv
nada entretinha
as nossas vísceras.

Você, entre um comercial
e outro, alimentou florestas
ao invés de dragões.

(Era domingo demais
para uma natureza
assim tão vasta,
assim tão brusca.)

Quis sair: mas é domingo.
Era domingo, não
entendi.
Quis sair, eu disse: fica.
Com te conter, eu
te perdi.

[4]

Eu, sozinho,
dei de beber coca-cola
e escrever poemas
pra não queimar depois.

Os dragões morreram todos.
Não sei se de fome. Não sei
se de tédio.

A. F.

07/11/2015

Mais populares que Jesus Cristo



* Imagem: Garry Winogrand (1928–1984)


[  ]

Deus não está morto
– porque Coke é Deus
e desce gostoso na garganta
enquanto a gente se mastiga.

(Mais populares
que Jesus Cristo
os nosso métodos
de tortura.)

Se eu te mostrasse
a materia
da poesia...
talvez você se matasse,
talvez tu me matarias...
talvez a gente beijasse
os pés da Virgem Maria...
talvez a gente brincasse
com a matéria da poesia.

Estamos nos torturando
desde o início dos séculos,
e o antes disso, meu bem,
éramos nós também.

Deus não está morto,
porque Deus são nossas bocas
undergrounds.

A. F.

12/02/2015

Borboletário


[abril de 2009/fev. de 2015]

Desde os 13
o meu quarto
está repleto
de borboletas,

borboletas
na janela,
borboletas
nas gavetas,

borboletas
amarelas,
borboletas
pretas,

borboletas,
borbotetas,
borbocetas,
borboletras.

A. F.

* Imagem: Young Andy (1995)

09/01/2015

O foxtrote dos desiludidos




Como o salão é todo espelhado,
uma hora você acaba se enxergando
severo, severo demais.
Você sabe que perdeu no jogo
qualquer coisa que te fará muita falta,
mas a banda continua, inflexível,
porque o show é bem maior que a vida.

É a primeira vez que você dança
o foxtrote dos desiludidos,
mas a dama não vai perdoar
o seu menor deslize.
Você dança, algo entorpecido,
e pensa em quanto ainda falta
para a hora do embargo total.
Mas a banda continua, inflexível...
zomba de tua desjuventude.

A dama quer tentar aquele giro
que você se esqueceu de ensaiar.
— Hoje você tem dezenove, ela diz,
amanhã terá trinta. A temporada
de ensaios it's over. E rindo:
Todas as formas de suicídio, darling,
resultaram/resultarão inúteis.

Você ri também (em todos os espelhos
suas mãos espalmadas contra o tempo).
Mas a banda continua, inflexível,
enquanto a dama desliza (e com que
facilidade, e com que doçura) para
os braços de um cara mais jovem.

A. F.

05/06/2014

Classificados

Viúva de ancas largas procura
jovem assaltante
com experiência em arrombar
velhos cadeados.

Interessado
dirigir-se armado,
qualquer noite dessas,
à casa de n° 730
da Rua Pau Brasil.

Não há o que temer:
nenhuma lente escondi-
da que guarde menção
de seus púberes traços,
nem cão que arranque
pedaço de sua calça jeans
de liquidação. Somente
uma pobre viúva branca
de ancas largas & meias
cinta liga.

Venha o quanto antes: es-
ta noite, jovem criminoso!
Seja violento,
à pobre viúva não poupe
surras gratuitas
de pistola. Não será difícil
que ela lhe mostre o cofre

aberto, para sempre aberto
à espera
de qualquer selvagem.

A. F.

06/02/2014

Todos os santos


Entre rifles, calado,
traduzo runas futuras.
(Os corvos anunciaram
jogos viscerais americanos!)

Lembra gostos mortos
— vermute, vagina —

desterrar debilmente
grossos cabelos brancos...

A. F.

03/10/2013

O Enforcado


No ano da Criação
um querubim sem pecado
 não se soube o motivo 
enforcou-se
na árvore da vida.

Eva, ao entender a metáfora,
abriu os olhos de Adão.
E Adão, de posse da visão,
quis ser deus e fornicar com Eva.
Por isso forçaram
os portões do Éden
e foram os dois, poetas,
abrir bordéis
e fundar filosofias.

Deus, para abafar o escândalo,
inventou demônios, espalhou profetas
e mandou cremar o corpo do suicida
e jogar suas cinzas nas águas d'Iemanjá.

Que ninguém nunca soubesse
por que suicidou
um querubim...


A. F.

07/02/2013

Politicária

O poeta correto
discute com o poeta incompleto
qual deles é capaz de bater o poeta concreto.

Enquanto isso o poeta concreto
tira cimento do nariz.

                             André Foltran

                                                                                 Congresso Nacional (1958), Brasília

15/09/2011

Poema de duas faces só


Quando nasci, um anjo black
desses que vivem caindo
foi entrando em casa sem dizê nada não.

Trancô todo mundo no quarto
levô dvd, os filmes
e a nossa televisão...

A. F.