04/09/2014

Hecatombe


*Foto: provoke no.2 de Daido Moriyama, 1969

É quase noite
na Rua Pau Brasil.
É quase hora de descer
a musa
— a grande musa
atômica.

Tiro as roupas, tranco

as porta: ela não tarda
a descer, e se me pega
ainda vestido:
— Darling, darling,
ainda escondido nesta
fantasia estúpida?!

Toda noite jogamos

intermináveis partidas
de xadrez, e enquanto
fujo de seu cavalo ou
bispo, ela sussurra:
— Darling, darling,
você me pertence,
per omnia saecula...

Se abro os olhos (depois

da eucaristia)
enquanto ela me beija,
e busco, nos olhos dela,
alguma nesga de piedade,
só encontro sombras
(e aumento um grau
minha miopia)...

— Quando é que acaba
esta guerra? pergunto,
em lágrimas, enquanto
ela me chupa. A musa
atômica sorri (o sorriso
que há de matar-me
antes dos vinte)... 

— Ora, darling, quantas revoluções

cabem num poema? depois me toma
à força... e como zomba, a malvada,
de minha resistência inútil...

Pela manhã mamãe arromba as

portas do meu quarto devastado,
desvira a cama e a escrivaninha,
recoloca os livros na estante e as
minhas partes espalhadas no
tapete,

e me costura, pedaço a pedaço,

fígado aqui, sexo ali, coração
lá... e resmunga:
— É sempre, sempre assim:
toda noite esta hecatombe!

A. F.

24/08/2014

Dois enterros


Meus pássaros não param de morrer. 
Esta manhã dois corpos recolhi
: um na esquina onde te perdi,
outro à janela em que me vi perder.

Duas rasas covas ternamente abri,
pois cada morto é parte do meu ser,
e como eu não soubesse o que dizer
um epitáfio a cada um escrevi.

Ao meu primeiro pássaro: Aqui jaz
um amador que, por perder uma asa,
dormita, agora, em ninhos abissais.

E ao meu segundo pássaro: Aqui jaz
a pomba branca que fugiu de casa
e não retorna nunca, nunca mais...

A. F.

* Foto: Natura Morta

20/08/2014

Caroline

Há qualquer coisa de triste
nessas moças que servem
café.

Encaro a mais feia, peço:
 Um café puro, por favor.
— Já trago, um momento.

(Risco num guardanapo:
Só os desesperados vão
a cafés p/ escrever.)

— Aqui está, mais alguma
coisa?
— Seu nome.
— Oi? Ah, é Caroline...

— Eu sei o seu segredo,
Ca-ro-li-ne, digo ao pé
do ouvido.

Caroline nunca mais
voltará ao trabalho.

A. F.

13/08/2014

Cinco tercetos de guerra


I - Pacífico

Toda paz
é um indício
de guerra.


II - Éden

Trocaram as pombas
— terror de inverno! — por
revoada de bombas?


III - Hecatombe

Do céu de Hiroshima
caem, feito anjos,
pássaros em chamas


IV - Chumbo

Soldadinhos mortos.
Meninas — mães palestinas 
recolhem os corpos.


V - Tristeto

Estou em paz, risco um poema
... Enquanto isso meus irmãos
tombam em combate.


A. F.

1º colocado no VIIIº Concurso Poesiarte (2014)