08/12/2014

Depoimento (5)



*Imagem de Jan Saudek

— Ele mandou eu não gritar, eu não gritei. Me encostou no carro com tanta força, a faca no pescoço quase entrando... Não fosse o alarme disparado nem sei que seria de mim, a calcinha arriada até embaixo... Aquele maldito alarme.

A. F.

30/11/2014

Autoajuda



[   ]

Aos embargados,
desenganados,
desesperados;

aos afogados,
apaixonados,
amaldiçoados

 dedico o dia,
minha sangria,
esta poesia:

A vida é bela
ainda que ela
chame Marcela.

A vida é bela
ainda que a cela
seja amarela.

Ainda que a vida
faça o homicida
e o suicida...

Ainda que a vida
não se decida
por ser florida...

A vida é boa!
Ainda que doa,
ainda que doa...

A. F.

16/10/2014

Aos dezoito



* Foto: Manhã na praia

Escrevo porque não sei dançar.
Mamãe me disse que é preciso
arrumar emprego & namorada
— e nunca foi tão difícil
fazer a barba sem cortar
os pulsos.

               Quando nasci, confesso
               : não veio anjo algum.
               Desde então os invento...
               Contra o tédio desde 1996.

Paro ainda mais uma vez à porta da tabacaria
onde a cruz estrangeira guarda a morte.
Não tenho aonde ir. É tarde
e amigo algum me abriria a porta.

               Meus amigos são fabulosos!
               A alguns escrevo cartas
               que demoram a chegar,
               ou se extraviam. A outros
               contos eróticos
               que nunca lerão.

Ainda ontem lia um poema perigoso
num clube patético,
e me chamavam O Inflamável,
e bebiam em meu nome
— eis minha glória!

Ontem também encontrado morto
(nove facadas, o pescoço
cortado) um selvagem qualquer
aqui da Rua Pau Brasil. Virgens
em pânico!

Eu queria pra mim o pudor dos comedidos
e seus movimentos precisos e simulados.
Mas dividiram meu peito em castas
e povoaram... Estou exposto & estúpido.

Que triste revisar as coisas
de ontem, agendar as coisas
de amanhã. Por ora: (1) alimentar
o cão, (2) trancar as portas, (3)
dormir... O céu é logo depois
do abysmo…

A. F.

15/09/2014

Oxalá Vanda



[   ]

Comprei perfume,
cal importado —
mas não há lume
: cheiro a pecado.

Eu cheiro à dita
: a tre-pa-dei-ra
Vanda maldita.
(Ó macumbeira,

maldita prece,
dita n'umbanda,
que tu me deste!)

Não há lavanda
que me tire esse
cheiro de Vanda.

A. F.