09/01/2015

O foxtrote dos desiludidos




Como o salão é todo espelhado,
uma hora você acaba se enxergando
severo, severo demais.
Você sabe que perdeu no jogo
qualquer coisa que te fará muita falta,
mas a banda continua, inflexível,
porque o show é bem maior que a vida.

É a primeira vez que você dança
o foxtrote dos desiludidos,
mas a dama não vai perdoar
o seu menor deslize.
Você dança, algo entorpecido,
e pensa em quanto ainda falta
para a hora do embargo total.
Mas a banda continua, inflexível...
zomba de tua desjuventude.

A dama quer tentar aquele giro
que você se esqueceu de ensaiar.
— Hoje você tem dezenove, ela diz,
amanhã terá trinta. A temporada
de ensaios it's over. E rindo:
Todas as formas de suicídio, darling,
resultaram/resultarão inúteis.

Você ri também (em todos os espelhos
suas mãos espalmadas contra o tempo).
Mas a banda continua, inflexível,
enquanto a dama desliza (e com que
facilidade, e com que doçura) para
os braços de um cara mais jovem.

A. F.

08/12/2014

Depoimento (5)



*Imagem de Jan Saudek

— Ele mandou eu não gritar, eu não gritei. Me encostou no carro com tanta força, a faca no pescoço quase entrando... Não fosse o alarme disparado nem sei que seria de mim, a calcinha arriada até embaixo... Aquele maldito alarme.

A. F.

30/11/2014

Autoajuda



[   ]

Aos embargados,
desenganados,
desesperados;

aos afogados,
apaixonados,
amaldiçoados

 dedico o dia,
minha sangria,
esta poesia:

A vida é bela
ainda que ela
chame Marcela.

A vida é bela
ainda que a cela
seja amarela.

Ainda que a vida
faça o homicida
e o suicida...

Ainda que a vida
não se decida
por ser florida...

A vida é boa!
Ainda que doa,
ainda que doa...

A. F.

16/10/2014

Aos dezoito



* Foto: Manhã na praia

Escrevo porque não sei dançar.
Mamãe me disse que é preciso
arrumar emprego & namorada
— e nunca foi tão difícil
fazer a barba sem cortar
os pulsos.

               Quando nasci, confesso
               : não veio anjo algum.
               Desde então os invento...
               Contra o tédio desde 1996.

Paro ainda mais uma vez à porta da tabacaria
onde a cruz estrangeira guarda a morte.
Não tenho aonde ir. É tarde
e amigo algum me abriria a porta.

               Meus amigos são fabulosos!
               A alguns escrevo cartas
               que demoram a chegar,
               ou se extraviam. A outros
               contos eróticos
               que nunca lerão.

Ainda ontem lia um poema perigoso
num clube patético,
e me chamavam O Inflamável,
e bebiam em meu nome
— eis minha glória!

Ontem também encontrado morto
(nove facadas, o pescoço
cortado) um selvagem qualquer
aqui da Rua Pau Brasil. Virgens
em pânico!

Eu queria pra mim o pudor dos comedidos
e seus movimentos precisos e simulados.
Mas dividiram meu peito em castas
e povoaram... Estou exposto & estúpido.

Que triste revisar as coisas
de ontem, agendar as coisas
de amanhã. Por ora: (1) alimentar
o cão, (2) trancar as portas, (3)
dormir... O céu é logo depois
do abysmo…

A. F.