06/08/2018

O homem sem coração


*Foto de Daido Moriyama
in Farewell Photography

E logo agora ocê, Tereza,
quer discutir a relação?
Depois daquela sobremesa?
Com eu já de samba canção?

Deus me livre, só de falar
nessas coisas do coração,
eu já começo a me alembrar
do que vi na televisão.

Na reportagem um doutor
(dizem "bastante respeitado")
falava sem nenhum pudor
que o coração foi superado.

Numa cidade dos Estados
Unidos, um homem como eu
teve seu coração trocado
por de metal, e não morreu!

Sim, Tereza, fizeram isso
porque seu coração sofria,
se não de um desamor mortiço,
de alguma estranha anomalia.

É de longe a coisa mais feia
que ousaram os americanos:
trocar as carnes e as veias
por engrenagens, fios e canos.

Pensa naquele homem no leito
enquanto ia sendo operado,
aquele homem tendo o peito
completamente esvaziado...

Pensa naquele pobre homem
na mesa de operação:
tinha família, emprego, nome,
mas já não tinha coração.

E, dizem, quando despertava,
o peito inteiro costurado,
o falso coração já estava
por inteiro cicatrizado.

E assim o homem ia sendo
cada vez menos humano:
inda ontem ia morrendo
e agora era à prova de danos.

E a pior parte da loucura
eles guardaram pro final:
botaram ao vivo a criatura
do coração artificial.

E a pergunta que não calava
veio qual desfibrilador:
será que não se atrapalhava
agora nas coisas do amor?

Pelo contrário  disse, no ar —,
amo mais que antigamente,
quando tinha de carregar
um velho coração doente.

Agora amar é só o que faço
na vida!  exclamou, satisfeito 
e tenho muito mais espaço
que qualquer um aqui no peito.

E como se já não bastasse,
pra causar mais indignação,
disse ele, como quem gritasse:
mais amor, menos coração!

Tereza, é coisa que se diga
alto e em rede nacional?
Pode humilhar sem causar briga
órgão tão belo e... natural?

E ainda ecoa em meus ouvidos
a indelicada exclamação;
só pode mesmo ter saído
de um sujeito sem coração.

Mas, Tereza, a noite passa
e a gente aqui de falação.
Põe cá tua mão, minha devassa,
vem sentir minha pulsação.

A. F.

1º lugar no Concurso Poesiarte
 2018. O tema era "coração".


01/08/2018

Das cartas extraviadas



Para onde vão as cartas extraviadas,
sempre perdidas, nunca encontradas?
O que dirão as cartas extraviadas
sobre esta vida ou vidas passadas?
Serão sonetos, odes ou baladas?
Linhas de amor ou ódio às amadas?
Tão mal escritas ou tão bem traçadas
filosofias ou contos de fadas?
Para onde vão as cartas extraviadas,
sempre perdidas, nunca encontradas?
Em que cruel fogueira são queimadas?
Em que porão escuro estão guardadas?
E por quem lidas? E por quem rasgadas?
O que dirão as cartas extraviadas?

A. F.
*foto minha

29/12/2017

Auto(psycho)grafia


O poeta é um pecador.
Peca tanto, e tão somente,
que tem de fingir licor
o sangue que traz nos dentes.

E os que leem o que escreve,
na bebida sentem bem 
até o anjo, quando bebe
aos demônios grita: Amém!

E assim, embriagados,
sem dor nem religião,
conduzimos nosso arado
sobre ossos do coração.

A. F.

21/04/2017

O sangue ao redor


Toda manhã
o mesmo impasse
 como estancar
o sangramento?
Dessa sangria
nasce teu dia.

Deixa que o sangue
siga seu fluxo,
deixa correr,
é sangue apenas,
e vermelhíssimo.

Deixa que sangre
e vá descendo
pela garganta,
em tua camisa
e na toalha
branca, branquíssima;
deixa que escoe
por entre os dedos,
que abra caminhos,
que ganhe a pia,
também os canos
são boas veias,
veias são canos
de carne ou plástico,
veias contínuas
que levam a mares
de sangue. O sangue,

se tu soubesses
que é por vertê-lo
ao barbear-se,
em finos cortes,
algumas gotas
diariamente,
e só por isso
que sobrevives,
— mas até quando?
até que um dia
já não mais tenhas
como conter
o humano gesto

e com a gilete
que faz a barba
toda manhã
para estar vivo,
você, irmão,
pobre maninho,
venha cortar
os próprios pulsos
num movimento
raro, preciso,
como tivesse
sido ensaiado
— e o ensaiou,
diariamente,
por toda a vida
e muito antes
de ter nascido.

A. F.

* Imagem: cena de O som ao redor 
(2013), de Kleber Mendonça Filho