11/10/2018

Solange quer ir para praia

* Foto de Diane Arbus

Solange quer ir para praia
Solange quer ir ver o mar
Por isso Solange trabalha
Solange só faz trabalhar
Solange nasceu de cesárea
Chamava Eliéser, prazer
Hoje sou Solange, Solange
Lambe range o que tu quiser
Solange não ri, só gargalha
Solange quer ir para praia
Solange quer ir ver o mar
Solange tem uma navalha
Logo hoje esqueceu de trazer
Solange não ri, é uma falha
Solange tem pau e é mulher
Solange? Não vi. Foi pra praia
Sou Omar, traveco, prazer
Solange sozinha no beco
Solange sozinha na vida
Solange, o mar não tem saída
Vai, nada, menino-mulher!
Só range, socorro, socorro
Solange quer ir para praia
Solange quer fugir do Omar
Solange quer subir o morro
Solange não quer trabalhar?
Socorro, não ouvem Solange
Socorro, que eu morro, soco-
Uma onda que leva três dentes
Solange, que nunca foi crente
Já sente a torrente do mar
Como entra lá dentro da gente
Como é fácil de se afogar
Solange batalha, ele vence
Aperta o pescoço, a corrente
Zomba monta arromba, Omar
Vai sugando os peitos e o ar
Solange quer ir para praia
Solange nasceu de cesárea
Solange não sabe nadar

A. F.

24/08/2018

Para nossa elegia

* Imagem de Sally Mann
Álbum: Family Pictures
(1984-1991)

Sente o cheiro? Vem de
nós, que apodrecemos.
Já somos o cadáver
que seremos.

Esses perfumes que eles
compram, embrulham e
nos dão não perfumam
anos e anos de podridão.
Não. A gente é imune.

Filhos da mesma sorte,
somos mortos pré-morte.
Só a decomposição
nos une  e o cheiro

forte. Não há choro,
vela, oração que pare
a putrefação. E sobre-
tudo: não há caixão
suficiente para tanta
gente por enterrar.

Uns ficam indigentes,
outros se lançam ao
mar, uns eternamente
ficam a sustentar seus
corpos semoventes,
outros tem que queimar

— quem foi inventar
que morto não sente?

A. F.

14/08/2018

Meus amigos


* Foto de Daido Moriyama


Sobre o tema amizade outros cantaram
a comunhão das almas. Mas eu não:
meus melhores amigos se mataram
 ficaram uns em decomposição.

Todos os meus amigos fracassaram,
não chegaram ao primeiro milhão.
Os filhos que tiveram não vingaram,
frutos podres de estranha geração.

Meus amigos, nunca eles se casaram,
nem fui eu a quebrar tal maldição.
Toda noite, os que não suicidaram

vêm à minha decrépita mansão
esquartejar a vida 
 acho, preparam
um monumento à Grande Depressão.

A. F.

06/08/2018

O homem sem coração


*Foto de Daido Moriyama
in Farewell Photography

E logo agora ocê, Tereza,
quer discutir a relação?
Depois daquela sobremesa?
Com eu já de samba canção?

Deus me livre, só de falar
nessas coisas do coração,
eu já começo a me alembrar
do que vi na televisão.

Na reportagem um doutor
(dizem "bastante respeitado")
falava sem nenhum pudor
que o coração foi superado.

Numa cidade dos Estados
Unidos, um homem como eu
teve seu coração trocado
por de metal, e não morreu!

Sim, Tereza, fizeram isso
porque seu coração sofria,
se não de um desamor mortiço,
de alguma estranha anomalia.

É de longe a coisa mais feia
que ousaram os americanos:
trocar as carnes e as veias
por engrenagens, fios e canos.

Pensa naquele homem no leito
enquanto ia sendo operado,
aquele homem tendo o peito
completamente esvaziado...

Pensa naquele pobre homem
na mesa de operação:
tinha família, emprego, nome,
mas já não tinha coração.

E, dizem, quando despertava,
o peito inteiro costurado,
o falso coração já estava
por inteiro cicatrizado.

E assim o homem ia sendo
cada vez menos humano:
inda ontem ia morrendo
e agora era à prova de danos.

E a pior parte da loucura
eles guardaram pro final:
botaram ao vivo a criatura
do coração artificial.

E a pergunta que não calava
veio qual desfibrilador:
será que não se atrapalhava
agora nas coisas do amor?

Pelo contrário  disse, no ar —,
amo mais que antigamente,
quando tinha de carregar
um velho coração doente.

Agora amar é só o que faço
na vida!  exclamou, satisfeito 
e tenho muito mais espaço
que qualquer um aqui no peito.

E como se já não bastasse,
pra causar mais indignação,
disse ele, como quem gritasse:
mais amor, menos coração!

Tereza, é coisa que se diga
alto e em rede nacional?
Pode humilhar sem causar briga
órgão tão belo e... natural?

E ainda ecoa em meus ouvidos
a indelicada exclamação;
só pode mesmo ter saído
de um sujeito sem coração.

Mas, Tereza, a noite passa
e a gente aqui de falação.
Põe cá tua mão, minha devassa,
vem sentir minha pulsação.

A. F.

1º lugar no Concurso Poesiarte
 2018. O tema era "coração".