20/01/2019

Não vieram só belas suíças


Quando Dom João mandou povoar aquelas serras
provincianas, não vieram só belas suíças,
mas também alemães com suas futuras guerras,
e gordos padres com suas estranhas missas;

também algumas linhas, agulhas & freiras
tementes ao Senhor e à alta costura (e hoje
quatro de cada dez mulheres brasileiras
usam lingerie de Friburgo — toda noite);

e vieram jovens pálidos de puberdade
que escreviam poemas feios de amor (e
eram comidos, às vezes, por goitacazes).

E tanto aprimoraram na suecada que,
se já a velha Friburgo não vale uma trova,
em mil sonetos não há de caber a Nova.

A. F.

12/01/2019

Rio Preto: a face escura

1
Minha cidadezinha, eu bem queria
te descrever enquanto o céu inda arde,
enquanto corpos não bloqueiam as vias,
tão cedo transviados, mas é tarde...

Fosse eu inda pequeno, eu brincaria
de te romantizar e sem alarde
multiplicar, em versos, a entropia
do sol de teus heróis. Mas e os covardes?

Alguém falseou os pesos da balança,
hoje essa cruel certeza me invade:
não dá mais pra brincar de ser criança.

Não dá mais pra brincar com esta cidade.
Que esta cidade é grande e logo cansa
de brincar de fingir que é de verdade.

2
Queria eternizar só o bonito
— aquela rutilante face. Mas
quanto mais pela cidade eu transito,
em meio à prostitutas e chacais,

mais escuto por trás do canto um grito.
"Bem-vindos", diz na entrada, mas atrás
da placa de Hell Preto está escrito:
"Deixai toda a esperança vós que entrais!"

No escuro, sem qualquer delicadeza,
se estende, qual imenso escaravelho,
um tecido ancestral de água e torpeza.

Já foi-se há muito o sol e seu vermelho,
e nas imundas águas da represa
Rio Preto enfim se enxerga no espelho.

3
E como é bela e vil, esta imagem
não cabe num soneto do interior.
Há dentro de Rio Preto outra cidade:
uma é pro público, outra é pro ator.

Uma é pra quem está só de passagem,
outra é pro condenado morador;
pra uns pode ser última paragem,
pra outros é o além do Bojador.

Em Rio Preto, de noite, capivaras
degolam travestis, e moças mugem
enquanto cães realizam velhas taras.

Assassinado, um cisne é só penugem.
Esta outra face que a gente mascara
é menos purpurina e mais ferrugem.

A. F.


08/12/2018

Partituras

1
Partir. Pra lá. Daqui. Partir-se. E
partir-me. Agora. Já. E mesmo que.

2
Não importa o solo, o poema medra
no meio do caminho. Uma pedra

divide o mundo em dois, solo partido
pela pedra-poema. “É que, querido,

viver é dividir-se assim, ao meio,
como faz tua cara entre meus seios...”

Só a pedra no caminho não se quebra,
não compartilha nunca o que em si leva.

Encerrada em si mesma não divide.
A pedra é feita de pedra. E de.

3
Viver é caminhar. Segundo os médicos,
caminham todos, mesmo os paraplégicos

caminham nas suas camas, de seus bancos.
E até o atleta olímpico é manco

no caminhar da vida. Em todo canto
andam seres sozinhos. E no entanto

mesmo o mais solitário anda em bando.
No meio do caminho vão deixando

o que não sobrevive à subida.
No meio do caminho a própria vida

4
vai ficando. Tal qual poemas cortados
nós partimos, partidos. Por que diabos

seguimos caminhando se há sempre
a pedra pra partir no meio a gente?

Se viver é só isso, tanto faz
cortar o poema, os pulsos, tanto faz

escrever um poema ou simplesmente
calar já desde o berço. E tão somente.

5
Ou devamos por isso mesmo ir,
já que ficar também é um partir.

Partir para Chicago ou Istambul,
mas nunca desviar do interno sul.

Seja em Itabira ou Paraty,
em Rio Preto ou Madrid, é sempre em si

que se caminha. Mesmo se matar
é um modo de viver, de ser e estar:

de no mundo ser mais um suicida,
de no mundo estar morto. Que a vida

é tudo isso. E escrever um novo poema,
se não resolve, não piora o problema

da pedra — metafísico — que se
mete em qualquer caminho que se leve.

É por razão alguma que se escreve.
Que se caminha. Vive. E ainda assim.

A. F.

11/11/2018

A Balada da Bala


   Fomos convidados pra Balada da Bala. Na porta da balada estava escrito:

AQUI NÃO SE BAILA, SE CALA
ASSINADO: O MITO

   Fomos convidados, viemos porque quisemos. Estava tudo no panfleto. Viemos porque não o lemos.
   A batida era marcada pelo pelotão de fuzilaria:
   — Ninguém sai desta balada sem uma bala na bacia!
   O pelotão era formado de homens pequeninos. Um clube tosco composto SÓ DE MENINOS. (Na Balada da Bala homens pequenos se tornavam homens pequenos com armas.)
   E na balada a gente ia virando história — história de terror que não assusta —, nossos cadáveres tombando em memória do Coronel Brilhante Ustra. Primeiro iam ficando obsoletos todos os tons de preto. Depois era a vez dos invertidos entrarem nos caixões, armários de onde não deviam ter saído. Dizia no panfleto que gente branca não pagava, mas no paredão até eles conseguiam uma vaga. Na hora do show os crentes botavam a bíblia no peito — mas morriam do mesmo jeito...
   Tinha a senhora, coitada, que berrava:
   — Eu ajudei a organizar a balada!
   Mas ali a sua palavra também não valia nada já que ela não servia nem para ser estuprada como faziam com as pretas, com as sapatas ajeitadas, e em casa, com suas esposas belas e recatadas, e foi gritando, gritando, até tombar, enfim, calada.
   Também tombavam, abatidos, aqueles que tinham asas — e que, por isso, contrariavam 64 leis da casa.
   E tinha os que sussurraram na balada, sorridentes:
   — O anfitrião é um canalha.
   E pelo ato inconsequente não só eram metralhados como perdiam alguns dentes.
   — Há um engano, meus preclaros, eu também sou emergente!
   Mas era tênue a linha entre ser e não ser gente.
   — Sim, eu moro na favela, mas juro sou diferente!
   Mas as regras eram claras: primeiro atira, depois prende.
   — E vão me matar por quê? se também fui conivente…
   Ficou por último pra ver morrerem amigos e parentes.
   — Eu juro que não peguei, Dona Cláudia, eu sou decente!
   Mas não tinha o que dizer. Pela cor, era evidente…
   — Aceito a música se ela é pro bem da nossa gente.
   De todos eram os que tombavam mais facilmente.
   — O meu pai é militar!
   — Fomos sempre obedientes!
   Mas morriam, que ainda não haviam corpos suficientes…
   E a cada hora chegavam mais homenzinhos de terno que uns chamavam de governo, outros, karma. Vinham pra nos assistir. E a cada hora entravam mais sapatas trans viados pra serem todos passados pelas armas. E o governo ou karma a rir…
   E era uma banho de sangue… e era um sangue tão lindo… era melhor que bang-bang… era melhor que vinho tinto… era a gente acabando… eram eles sorrindo…
   E no entanto éramos tantos, mortos matados, mortos em bando, éramos corpos retorcidos, abraçados, comprimidos, corpos sumariamente adormecidos, corpos precocemente anoitecidos, corpos que assim unidos já não eram corpos mas um imenso Corpo, mas um estranho corpus de uma pesquisa trágica e sem escopo conhecido.
   Os seguranças da noite não estavam preparados pra lidar com nosso ser. Com aquele imenso morto que foi levantando, contrariando a métrica e as leis dos corvos, forjando um novo acontecer.
   Éramos um corpo estranho, um corpo assim, nem menina nem menino, de Marias, Anas, Joãos, Triolés e Alexandrinos, de sacros e afros, de safados, sáficos, um corpo que era eu e era você, um corpo feio um corpo lindo. Éramos muitos corpos, éramos um só corpo, uma estrutura armada de blocos livres, sonetos, sonetetos, sonetilhos, espartanos e espartilhos...
   Resumindo: os homenzinhos vieram com tanques, aeroplanos e tudo quanto era bomba H. Miravam em todas as partes do Corpo, mas por mais que atirassem não conseguiam matar o que já estava morto. Morto, sim, mas ao vivo, pois trouxeram a tv, e as escadas magírus pra chegar até nós, mas por mais que subissem só conseguiam alcançar o nosso imenso umbigo — o nosso umbigo atroz! Vencidos, humilhados, só restou-lhes orar ao seu deus de araque. Não sabiam, coitados, da missa a metade…
   Sentados, ficaram a ver aquela coisa nova que ninguém sabia se prosa ou poesia. Aquela coisa tremenda que cedo ou tarde os pisaria. Aquele coisa éramos nós. Em nós já não havia esperança, mas havia a vontade de criar um universo em que pudéssemos viver ou nos matar. Não havia um poema, mas um verso que pelo menos nos cabia, uma balada em que podíamos dançar sem motivo, qual um balé de desgraçados, como fazem os versos livres, como fazem os versos de pés quebrados. Como fazem os vivos. Mesmo já paralíticos, dançar num duro e engessado ritmo. Não havia esperança, mas havia a vontade de forjar um coração que apesar deles bateria. Uma vontade de falar — sobretudo nos gagos e nos mudos — que bala alguma calaria. Uma vontade enorme de gozar e inundar tudo. Já não havia esperança, mas azia. Vontade de vomitar sobre essa gente pequena e vazia. E de sair sem pagar a consumação...
   Arrombamos, então, as portas da balada, e encaramos, heróicos, a alvorada do novo dia.
A. F.