26/01/2019

Sucata

Vendo poemas reciclados.

Os cato do chão, matéria
barata, verbo luminoso
em rio bosteiro.
Escolho as palavras
que ainda prestam
(é quase todas, inclusive
seborreia).
Amontoo tudo em
definitivos versos.
É um trabalho sujo.

Quando prontos,
estendo os poemas em longos varais feitos de tripas
humanas
e sem amor os entrego
a qualquer um que pague
o preço da sucata viva
que ofereço.

E quem me flagrasse nessas transações
de beira de estrada, veria um vendedor
e sua mercadoria.
Mais nada.

A. F.

20/01/2019

Não vieram só belas suíças


Quando Dom João mandou povoar aquelas serras
provincianas, não vieram só belas suíças,
mas também alemães com suas futuras guerras,
e gordos padres com suas estranhas missas;

também algumas linhas, agulhas & freiras
tementes ao Senhor e à alta costura (e hoje
quatro de cada dez mulheres brasileiras
usam lingerie de Friburgo — toda noite);

e vieram jovens pálidos de puberdade
que escreviam poemas feios de amor (e
eram comidos, às vezes, por goitacazes).

E tanto aprimoraram na suecada que,
se já a velha Friburgo não vale uma trova,
em mil sonetos não há de caber a Nova.

A. F.

12/01/2019

Rio Preto: a face escura

1
Minha cidadezinha, eu bem queria
te descrever enquanto o céu inda arde,
enquanto corpos não bloqueiam as vias,
tão cedo transviados, mas é tarde...

Fosse eu inda pequeno, eu brincaria
de te romantizar e sem alarde
multiplicar, em versos, a entropia
do sol de teus heróis. Mas e os covardes?

Alguém falseou os pesos da balança,
hoje essa cruel certeza me invade:
não dá mais pra brincar de ser criança.

Não dá mais pra brincar com esta cidade.
Que esta cidade é grande e logo cansa
de brincar de fingir que é de verdade.

2
Queria eternizar só o bonito
— aquela rutilante face. Mas
quanto mais pela cidade eu transito,
em meio à prostitutas e chacais,

mais escuto por trás do canto um grito.
"Bem-vindos", diz na entrada, mas atrás
da placa de Hell Preto está escrito:
"Deixai toda a esperança vós que entrais!"

No escuro, sem qualquer delicadeza,
se estende, qual imenso escaravelho,
um tecido ancestral de água e torpeza.

Já foi-se há muito o sol e seu vermelho,
e nas imundas águas da represa
Rio Preto enfim se enxerga no espelho.

3
E como é bela e vil, esta imagem
não cabe num soneto do interior.
Há dentro de Rio Preto outra cidade:
uma é pro público, outra é pro ator.

Uma é pra quem está só de passagem,
outra é pro condenado morador;
pra uns pode ser última paragem,
pra outros é o além do Bojador.

Em Rio Preto, de noite, capivaras
degolam travestis, e moças mugem
enquanto cães realizam velhas taras.

Assassinado, um cisne é só penugem.
Esta outra face que a gente mascara
é menos purpurina e mais ferrugem.

A. F.


08/12/2018

Partituras

1
Partir. Pra lá. Daqui. Partir-se. E
partir-me. Agora. Já. E mesmo que.

2
Não importa o solo, o poema medra
no meio do caminho. Uma pedra

divide o mundo em dois, solo partido
pela pedra-poema. “É que, querido,

viver é dividir-se assim, ao meio,
como faz tua cara entre meus seios...”

Só a pedra no caminho não se quebra,
não compartilha nunca o que em si leva.

Encerrada em si mesma não divide.
A pedra é feita de pedra. E de.

3
Viver é caminhar. Segundo os médicos,
caminham todos, mesmo os paraplégicos

caminham nas suas camas, de seus bancos.
E até o atleta olímpico é manco

no caminhar da vida. Em todo canto
andam seres sozinhos. E no entanto

mesmo o mais solitário anda em bando.
No meio do caminho vão deixando

o que não sobrevive à subida.
No meio do caminho a própria vida

4
vai ficando. Tal qual poemas cortados
nós partimos, partidos. Por que diabos

seguimos caminhando se há sempre
a pedra pra partir no meio a gente?

Se viver é só isso, tanto faz
cortar o poema, os pulsos, tanto faz

escrever um poema ou simplesmente
calar já desde o berço. E tão somente.

5
Ou devamos por isso mesmo ir,
já que ficar também é um partir.

Partir para Chicago ou Istambul,
mas nunca desviar do interno sul.

Seja em Itabira ou Paraty,
em Rio Preto ou Madrid, é sempre em si

que se caminha. Mesmo se matar
é um modo de viver, de ser e estar:

de no mundo ser mais um suicida,
de no mundo estar morto. Que a vida

é tudo isso. E escrever um novo poema,
se não resolve, não piora o problema

da pedra — metafísico — que se
mete em qualquer caminho que se leve.

É por razão alguma que se escreve.
Que se caminha. Vive. E ainda assim.

A. F.