26/06/2019

A pena

Às vezes eu penso que poderia viver
e nunca escrever um poema.
Uma vida calma, sem disparates.
Sem nunca me sentir acuado
por um pássaro que invade o quarto,
os olhos amarelos e terríveis.
A poesia não seria mais que um termo.
Só esperaria pelas coisas
que realmente importam: o próximo
ônibus, o próximo sexo, o próximo filme
da Marvel.
E pombos nunca mais invadiriam o quarto
e me acuariam em minha própria casa.
E moças nunca mais me deixariam mudo.
Sem compreender as palavras,
talvez fosse mais fácil dizê-las.
Sem qualquer avalanche, pedir um suco,
uma bala que seja. Meu sonho é uma bala
daquela azedinha, mas por que só consigo
apontar a de iogurte? Meu sonho
é olhar para a velha no trem, e dizer,
sem poréns, será chove? Ah,
o mundo seria plano e habitável!
Os livros poucos, e perecíveis...

Em vez disso encaro o pássaro:
que engenhosa estrutura é necessária
para sustentar um voo.
(Uma vez, no sítio, quando destripavam
a galinha eleita para o nosso almoço,
vi como as penas também cresciam
furtivamente por entre as vísceras.)
Encaro o pássaro: é mais que penas.
É pena e sangue.

Fendas enormes se abrem na casa,
o pássaro prepara o voo,
fechar as portas é um gesto inútil.
Inútil erigir qualquer construção
se um pássaro às três da tarde
derruba tudo com um bater de asas...

12/06/2019

Os primitivos



Dois gigantes que se amam,
num país dos mais remotos,
são, vejam vocês, a causa
principal dos maremotos.
Dois gigantes que se amam
(dadas as devidas pausas
do amar para naufragar)
navegam contra a corrente:
mais que superfície, amar
é nadar internamente.

Na multidão, dois gigantes
juntos estão sempre a sós,
pois só existe o que é amado
(como há diferença entre os
que são vistos e enxergados,
que gritam e os que tem voz).
E, no entanto, só se encontram
quando estão entre lençóis.

Entre lençóis, dois gigantes
se procuram no escuro
— o que de carne é oco,
o que de sangue é duro.
Justamente aquele pouco
que encontram é o que procuram.

Quem da praia olha esse embate
passado de gerações,
vê só, num perfeito engate,
um casal febril de anões.


*Foto: Diane Arbus, Young couple on
a bench in Washington Square Park, 1965

10/06/2019

Do toque (ou Don't touch)

Tocar em uma pessoa
é gesto quase impossível,
porque uma pessoa é vária,
e todo toque, ambíguo.

Vemos o que está na cara,
mas não vemos o invisível:
a distância que separa
duas pessoas: dois abismos.

Mesmo a bala que dispara
ao encontro do intangível,
por mais que perfure, para
na superfície possível.

Tocar em uma pessoa
é transpassar o inimigo,
é escavar uma escara
até seu núcleo terrível.

Nunca estenda sua mão para
tocar em um corpo vivo.
Melhor se toca  repara 
em mortos, flores, jazigos.

30/05/2019

Ave Maria Sapatã


Maria Sapatã, Sapatã, Sapatã
De dia é Maria, de noite, Lesbiatã





As sapas tem pouca vida
real e mesmo nas novelas
são por vezes explodidas
dentro do shopping. Mas elas

vão vivendo como podem,
da forma que mais convém:
vez ou outra, quando fodem,
descarrilham méis e trens,

capotam carros na estrada,
derrubam aviões também
com suas rotas transviadas
para os clitóris do além.

De manhã são encontradas
nuas em quartos de hotéis,
docemente assassinadas
por obscuros quartéis,

entre garrafas vazias
e consolos de hortelã.
Não você: você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Mas Maria, as sapas, elas
nunca cansam de morrer.
Umas pulam da janela,
outras pulam de prazer.

Com seus vibradores voam
em banheiras ou chuveiros,
e seus corpos se amontoam
diariamente nos banheiros,

umas eletrocutadas,
outras se olhando no espelho
e não vendo nada. Nada
além de um ser de esguelho.

De manhã são encontradas
em decúbito dorsal
por suas fiéis empregadas
que usam Veja, soda e cal.

Mas Maria, as sapas, elas
morrem todo santo dia,
mesmo aquelas que são belas,
mesmo as filhas de Maria.

Morrem muito no cinema,
no teatro, nas revistas,
nos artigos, nos poemas
e no ginecologista;

morrem tomando cerveja
com as amigas no domingo,
morrem indo pra igreja,
morrem voltando do bingo.

De manhã são encontradas
em decúbito ventral,
secamente violadas
em manchetes de jornal,

entre as notícias do dia
e as promoções da Havan.
Não você. Você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Dizem que em média, Maria,
uma sapa é assassinada
trinta e três vezes ao dia.
Na avenida, na calçada,

no parque, na homilia,
no ônibus, no elevador
no almoço de família,
no twitter, no humor,

no uber, na padaria,
no colégio, no divã,
não você: você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Mas Maria, as sapas, elas
já estão por toda parte,
em seus quartos sem janela
vive um sol que brilha e arde.

Para seres que, sem gozo,
se vomitam e se enlamam,
há nada mais perigoso
que duas sapas que se amam.

Duas sapas que se amam
incomodam muita gente,
cada vez que elas se engancham
tomba fulminado um ente.

É por isso que as sapatas
são por vezes encontradas
desovadas, meio às matas,
quais aranhas enroscadas.

Duas sapas numa moto
desencadeiam aneurismas;
muitas sapas, quando em foco,
revoluções, cataclismas.

É por isso que as sapatas
aparecem sobrepostas
em suas casas (casamatas),
suicidadas, decompostas.

No aeroporto, quantas malas
levam sapas picotadas...
Basta olhar: em cada opala
há uma sapa esquartejada.

Não você. Você, Maria,
não se dá com morte vã.
Se de dia é Maria,
de noite é Lesbiatã.

AVE MARIA SAPATÃ,
metade sapa, sapata,
e outra metade Satã.
Você vive em quem te mata,

nos buracos mais profundos.
Nova mulher das cavernas,
você leva o fim do mundo
guardado por entre as pernas.

Nunca vão te perdoar
por não ter dado a luz,
que guardada, qual penhoar,
entre tuas pernas reluz.

Por jamais querer viver
à sombra de algum Jesus,
Sapatã, vai ser você
quem vão pregar numa cruz.

Eles te apedrejarão
em cada praça ou esquina,
mas pedras não chegarão
a sua alma luciferina.

Com frequência, Sapatã,
vão te estuprar. Tentarão
e no entanto virgem, sã,
em quem conhece a oração.

Uma oração nunca morre.
Depois do insano calvário,
virá sua glória, e ela escorre
pelos lábios de um rosário.