16/09/2019

Outra mulher alvejada

Você nunca pensou em tomar alvejante
enquanto lavava roupa. Até que pensa. Basta uma vez.
Você ficaria surpresa com o número de mulheres
que são encontradas ao lado do tanque, as pernas
em arco, a boca espumando, alvejadas
domesticamente. Você não sabia que lavar a roupa
podia ser fatal. Te ensinaram a tirar manchas, mas não
como identificá-las — se é molho, vinho ou sangue.
Lavar é verbo de guerra. Teu tanque, tua trincheira.
Você leva o alvejante pra perto da boca:
o hábito já disfarçou o cheiro, só lhe resta
conhecer o gosto. Não é tão ruim, você pensa,
os meninos ainda terão roupas limpas
pra resistir por mais duas semanas.

09/09/2019

Minha experiência com patins

Compraram meus patins foi na Avon
há tantos anos, nem era nascida.
Com eles deslizei e fui ao chão
vezes demais, tão só, tão distraída.

Se me ouviram chorar, foram os sons
dos patins em manobras suicidas.
E os momentos felizes passei com
os joelhos totalmente em carne viva.

Mas quando vi meninas no jardim
e quis andar, descalça, junta delas,
caí, quebrei as pernas. Era o fim.

Mamãe, aos pés da cama, hoje ela
me disse: Foi-se a idade dos patins.
Amanhã abriremos as fivelas.

12/08/2019

Stories

Sou sua melhor amiga. Contratada
pra desviar das redes todo o esgoto.
Quando você está que é um terremoto,
eu te substituo na balada.

Sou quem sorri, perfeita, pras suas fotos
quando você se encontra amordaçada
(e quem olha pras selfies não vê os cotos
de suas mãos, que já foram amputadas).

E quando você se jogar da escada,
do quarto andar, do carro em movimento,
ou pender da cortina, ou afogada,

ou overdose, ou miolos ao vento...
estarei com você, amiga amada,
filmando o seu incrível passamento!

04/08/2019

A ilha

Nós chegamos à ilha ou foi a ilha
que de nós mansamente se acercava?
O caso é que encalhamos nossa quilha

numa porção de luz: a ilha brilhava.
Depois de tantas noites navegadas,
por fim a nossa âncora aportava

nessa ilha ultrarreal, pois inventada.
Era manhã na ilha, mal chegamos
estendemos cadeiras na enseada

para falar da vida, e falamos
dos naufrágios, dos livros que, perdidos
em alto-mar, enfim reencontramos

dentro da ilha, quais filhos crescidos,
e dos que, nas viagens, porto a porto,
nadaram sem retorno para o olvido...

A ilha era maior que o nosso povo,
cabia para cada um uma casa.
Queríamos, no entanto, um mundo novo

e antes de casas fabricamos asas
e voamos pela ilha, deslumbrados
com tudo aquilo que escapou a Nasa,

e a nós, sempre reféns dos astrolábios,
olhos vidrados em telões incríveis.
Como haviam mais árv'res que soldados,

mais aglomerações do que desníveis,
mais telas por pintar do que museus,
traçávamos caminhos impossíveis...

sem prédios, arranhávamos o céu.
Foi quando sussurrou uma menina:
E se for tudo um sonho? E anoiteceu.

A frase estremeceu nossas espinhas;
dos pares bruscamente nos soltávamos,
as pipas desprendiam-se das linhas...

E se for tudo um sonho? indagávamos.
Dormir era acordar para a outra vida
em que diariamente naufragávamos?

Nos deitamos na praia anoitecida,
alguns vendo se a ilha dissolvia,
outros bolando cartas suicidas

— eu olhava era o mar, e o mar se abria...
Que seja, disse alguém, a ilha foge
pois é feita de areia e poesia.

Nada é nunca o que era, que por hoje
nós possamos viver nesta utopia.