20/06/2013

Triolé dos Afogados


Nademos! Sim! Mas para onde?
Se se afogaram as estradas...
Se o luto corta o horizonte...
Nademos! Sim! Mas para onde?
Se já passou o último bonde...
Se as pernas já estão cansadas...
Se se afogaram as estradas...
Nademos! Sim! Mas para onde?

A. F.

* Desenho: Luminoso Afogado
de Rosa Carvalho (cores
originais invertidas)

06/06/2013

Canção Marítima



Nós, os navegantes
da contra maré,
aos olhos da massa
andamos em ré.

Em ré seguem eles
as linhas traçadas.
Não cabem nos mapas
ilhas inventadas...

Na praia de ossos
encontram a paz.
São livros fechados
na beira do cais...

Tão jovens infantes
seguimos de pé,
nós, os navegantes
da contra maré.

Nós, os fabricantes
da contra razão,
negamos cantar
a mesma canção.

Nós, os navegantes
da contra maré,
trazemos no passo
um novo balé.

Nós, os navegantes
— ou vou eu sozinho?
buscando, já louco,
alguém no caminho...

A. F.

(35 x 25 cm) de  Daniloz

27/05/2013

17

Tenho que ir
— a noite convida-me
para dançar.
Levo no peito
(cravado no peito)
uma pequena faca.

Tenho que ir

— os pés já não podem
outros caminhos.

Tenho que ir

— o verbo faminto
me chama, me inflama.

Tenho que ir

sem preocupar-me com as caras
atônitas, tremendo de frio,

sem dar ouvidos

aos comentários
que me chamam louco.

Tenho que ir.

17 anos. 17 anos só pra isso.
Desculpa, mãe.

Hora de calçar os chinelos,

os meus chinelos

e de pijama

verde-limão
sair no frio.

A. F.