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14/08/2018

Meus amigos


* Foto de Daido Moriyama


Sobre o tema amizade outros cantaram
a comunhão das almas. Mas eu não:
meus melhores amigos se mataram
 ficaram uns em decomposição.

Todos os meus amigos fracassaram,
não chegaram ao primeiro milhão.
Os filhos que tiveram não vingaram,
frutos podres de estranha geração.

Meus amigos, nunca eles se casaram,
nem fui eu a quebrar tal maldição.
Toda noite, os que não suicidaram

vêm à minha decrépita mansão
esquartejar a vida 
 acho, preparam
um monumento à Grande Depressão.

A. F.

06/08/2018

O homem sem coração


*Foto de Daido Moriyama
in Farewell Photography

E logo agora ocê, Tereza,
quer discutir a relação?
Depois daquela sobremesa?
Com eu já de samba canção?

Deus me livre, só de falar
nessas coisas do coração,
eu já começo a me alembrar
do que vi na televisão.

Na reportagem um doutor
(dizem "bastante respeitado")
falava sem nenhum pudor
que o coração foi superado.

Numa cidade dos Estados
Unidos, um homem como eu
teve seu coração trocado
por de metal, e não morreu!

Sim, Tereza, fizeram isso
porque seu coração sofria,
se não de um desamor mortiço,
de alguma estranha anomalia.

É de longe a coisa mais feia
que ousaram os americanos:
trocar as carnes e as veias
por engrenagens, fios e canos.

Pensa naquele homem no leito
enquanto ia sendo operado,
aquele homem tendo o peito
completamente esvaziado...

Pensa naquele pobre homem
na mesa de operação:
tinha família, emprego, nome,
mas já não tinha coração.

E, dizem, quando despertava,
o peito inteiro costurado,
o falso coração já estava
por inteiro cicatrizado.

E assim o homem ia sendo
cada vez menos humano:
inda ontem ia morrendo
e agora era à prova de danos.

E a pior parte da loucura
eles guardaram pro final:
botaram ao vivo a criatura
do coração artificial.

E a pergunta que não calava
veio qual desfibrilador:
será que não se atrapalhava
agora nas coisas do amor?

Pelo contrário  disse, no ar —,
amo mais que antigamente,
quando tinha de carregar
um velho coração doente.

Agora amar é só o que faço
na vida!  exclamou, satisfeito 
e tenho muito mais espaço
que qualquer um aqui no peito.

E como se já não bastasse,
pra causar mais indignação,
disse ele, como quem gritasse:
mais amor, menos coração!

Tereza, é coisa que se diga
alto e em rede nacional?
Pode humilhar sem causar briga
órgão tão belo e... natural?

E ainda ecoa em meus ouvidos
a indelicada exclamação;
só pode mesmo ter saído
de um sujeito sem coração.

Mas, Tereza, a noite passa
e a gente aqui de falação.
Põe cá tua mão, minha devassa,
vem sentir minha pulsação.

A. F.

1º lugar no Concurso Poesiarte
 2018. O tema era "coração".


02/12/2015

Éramos uma vez






* Imagem de Sally Mann
(1984-1991)

[1]

Éramos amarelos
como os canarinhos
e os girassóis.

Eu fazia a comida,
você alimentava
os dragões. Eu
escrevia os poemas,
você os queimava
na lareira.

Éramos um fogo só. 

[2]

Diziam, os vizinhos, quando
éramos amarelos,
que nossos olhos juntos
eram mais que o sol.

Deus sempre vinha
tomar uísque
em nossa casa
de bonecas.
(Éramos amarelos
e cristãos.)

[3]

Mas isso foi antes
daquele verde
nos seus olhos.

Era domingo
e na tv
nada entretinha
as nossas vísceras.

Você, entre um comercial
e outro, alimentou florestas
ao invés de dragões.

(Era domingo demais
para uma natureza
assim tão vasta,
assim tão brusca.)

Quis sair: mas é domingo.
Era domingo, não
entendi.
Quis sair, eu disse: fica.
Com te conter, eu
te perdi.

[4]

Eu, sozinho,
dei de beber coca-cola
e escrever poemas
pra não queimar depois.

Os dragões morreram todos.
Não sei se de fome. Não sei
se de tédio.



04/09/2014

Hecatombe


*Foto: provoke no.2 de Daido Moriyama, 1969

É quase noite
na Rua Pau Brasil.
É quase hora de descer
a musa
— a grande musa
atômica.

Tiro as roupas, tranco

as porta: ela não tarda
a descer, e se me pega
ainda vestido:
— Darling, darling,
ainda escondido nesta
fantasia estúpida?!

Toda noite jogamos

intermináveis partidas
de xadrez, e enquanto
fujo de seu cavalo ou
bispo, ela sussurra:
— Darling, darling,
você me pertence,
per omnia saecula...

Se abro os olhos (depois

da eucaristia)
enquanto ela me beija,
e busco, nos olhos dela,
alguma nesga de piedade,
só encontro sombras
(e aumento um grau
minha miopia)...

— Quando é que acaba
esta guerra? pergunto,
em lágrimas, enquanto
ela me chupa. A musa
atômica sorri (o sorriso
que há de matar-me
antes dos vinte)... 

— Ora, darling, quantas revoluções

cabem num poema? depois me toma
à força... e como zomba, a malvada,
de minha resistência inútil...

Pela manhã mamãe arromba as

portas do meu quarto devastado,
desvira a cama e a escrivaninha,
recoloca os livros na estante e as
minhas partes espalhadas no
tapete,

e me costura, pedaço a pedaço,

fígado aqui, sexo ali, coração
lá... e resmunga:
— É sempre, sempre assim:
toda noite esta hecatombe!

A. F.

20/08/2013

Sete conselhos p/ Gisele

À Gisele Roberta Ignan

1
Nunca revele teu verdadeiro nome, Gisele.
Se te perguntarem, minta:
– Sou Gisele...

2
Gisele, Gisele... Pare
de carregar o mundo!
Vai te dar dor nas costas...

3
As flores de abril, Gisele,
não são as mais belas.
Repare as de maio.

4
E não me saia pela manhã
sem protetor, dona Gisele!
Recomendo um fator 60
mas Deus também serve.

5
Gisele, o tempo é
ligeiro, se apresse...

6
Mas, acalme-se: não
tão rápido assim!

7
Se te apetece morrer,
Gisele, morra baixinho...
- E que seja de amor!

Só se morre de amor...

A. F.

~ Selecionado no 2° Concurso Literário Big 
Time Editora, a ser publicado em antologia.

04/08/2013

Onde cantam as cotovias

1.

Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...
Não há drogas, não há vida:
nunca houve um suicida...

Pus os meus barcos no mar
mas não querem navegar...
Tenho moinhos de vento
mas eles giram tão lento...

Nas ruas, todas tão planas,
passam manhãs cotidianas.
Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...

2.

Onde cantam as cotovias
cantam outros passarinhos
canções de todos os dias...

Quando acordo no meu ninho
já cansado de morrer
não há sangue, nem vizinho

a quem possa recorrer.
 E esse silêncio lá fora
que não me deixa escrever!

Como eu queria ir embora,
voltar pras minhas orgias,
e me esquecer da aurora
onde cantam as cotovias...
   
A. F.

~ 1º colocado no Desafio de Janeiro realizado
pelo blog Olaria das Letras. (Tema Livre.)

20/03/2013

O confronto

Neste gazal arbitrário
pago meu próprio salário.

Que estas palavras não
sejam o meu relicário.

Tentei orar tantas vezes
diante do adversário...

Pobres, minhas orações
perderam-se no rosário.

Hoje calado aguardo
Ele sair do armário.

Morreu de novo em confronto
- dirá meu obituário.

Como é difícil seguir
com o suicídio diário!...

André Foltran

Imagem de Lincoln Koga

14/11/2012

Quando as portas fecham

Quando as portas fecham
e não há aurora
fico como tonto

ando feito louco

pelo bar dos dias
vai-se o copo, as
horas...

e não há aurora.


 Aurora,

como te quero agora! Aurora
da minha vida... Carne
em minha labareda...

Mas aurora não quer nem saber

e me deixa na porta e me deixa na mão
feito cão sem casa
a desovar auroras
pelo mar das pias...

A. F.


~ Poema selecionado no "Prêmio Cultural Poesias de Amor"
para compor a antologia "O Livro do Amor" (AAL — 2012).

06/09/2012

Não quero-quero

Não quero-quero ter de dona a poesia
tampouco quero-quero dominá-la.

Não quero-quero a escravidão da língua.
Não quero-quero carregar bandeira.
Não quero-quero ser poeta.
Não quero-quero da sina
fazer profissão.

Não quero-
quero.

Só quero-quero ser livre!
Só quero-quero ser solto!
como o doce quero-quero da manhã
que esta manhã não veio...
Desenho de galho, John Ruskin.
[Ruskin´s Drawings, Asmolean Museum Oxford, 1997, p. 39]

04/04/2012

aquele ser


aquele ser sem gosto
aquele ser sem jeito
aquele ser que dorme
sobre teu nobre leito

aquele ser sem gosto
aquele ser sem cura
aquele ser no encosto
aquela alma escura

aquele ser sem gosto
aquele ser vazio
aquele ser sem rosto
que todo homem viu

aquele ser sem gosto
aquele ser sem nome
aquele ser que come
e não sente o gosto

A. F.


~ Selecionado no Prêmio Valdeck Almeida de Jesus - 2012 e publicado em antologia.
~ Publicado na 36° edição da revista Benfazeja.
~ Selecionado no concurso Poesia Todo Dia e publicado em antologia.