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09/09/2019

Minha experiência com patins

Compraram meus patins foi na Avon
há tantos anos, nem era nascida.
Com eles deslizei e fui ao chão
vezes demais, tão só, tão distraída.

Se me ouviram chorar, foram os sons
dos patins em manobras suicidas.
E os momentos felizes passei com
os joelhos totalmente em carne viva.

Mas quando vi meninas no jardim
e quis andar, descalça, junta delas,
caí, quebrei as pernas. Era o fim.

Mamãe, aos pés da cama, hoje ela
me disse: Foi-se a idade dos patins.
Amanhã abriremos as fivelas.

12/08/2019

Stories

Sou sua melhor amiga. Contratada
pra desviar das redes todo o esgoto.
Quando você está que é um terremoto,
eu te substituo na balada.

Sou quem sorri, perfeita, pras suas fotos
quando você se encontra amordaçada
(e quem olha pras selfies não vê os cotos
de suas mãos, que já foram amputadas).

E quando você se jogar da escada,
do quarto andar, do carro em movimento,
ou pender da cortina, ou afogada,

ou overdose, ou miolos ao vento...
estarei com você, amiga amada,
filmando o seu incrível passamento!

20/01/2019

Não vieram só belas suíças


Quando Dom João mandou povoar aquelas serras
provincianas, não vieram só belas suíças,
mas também alemães com suas futuras guerras,
e gordos padres com suas estranhas missas;

também algumas linhas, agulhas & freiras
tementes ao Senhor e à alta costura (e hoje
quatro de cada dez mulheres brasileiras
usam lingerie de Friburgo — toda noite);

e vieram jovens pálidos de puberdade
que escreviam poemas feios de amor (e
eram comidos, às vezes, por goitacazes).

E tanto aprimoraram na suecada que,
se já a velha Friburgo não vale uma trova,
em mil sonetos não há de caber a Nova.

A. F.

12/01/2019

Rio Preto: a face escura

1
Minha cidadezinha, eu bem queria
te descrever enquanto o céu inda arde,
enquanto corpos não bloqueiam as vias,
tão cedo transviados, mas é tarde...

Fosse eu inda pequeno, eu brincaria
de te romantizar e sem alarde
multiplicar, em versos, a entropia
do sol de teus heróis. Mas e os covardes?

Alguém falseou os pesos da balança,
hoje essa cruel certeza me invade:
não dá mais pra brincar de ser criança.

Não dá mais pra brincar com esta cidade.
Que esta cidade é grande e logo cansa
de brincar de fingir que é de verdade.

2
Queria eternizar só o bonito
— aquela rutilante face. Mas
quanto mais pela cidade eu transito,
em meio à prostitutas e chacais,

mais escuto por trás do canto um grito.
"Bem-vindos", diz na entrada, mas atrás
da placa de Hell Preto está escrito:
"Deixai toda a esperança vós que entrais!"

No escuro, sem qualquer delicadeza,
se estende, qual imenso escaravelho,
um tecido ancestral de água e torpeza.

Já foi-se há muito o sol e seu vermelho,
e nas imundas águas da represa
Rio Preto enfim se enxerga no espelho.

3
E como é bela e vil, esta imagem
não cabe num soneto do interior.
Há dentro de Rio Preto outra cidade:
uma é pro público, outra é pro ator.

Uma é pra quem está só de passagem,
outra é pro condenado morador;
pra uns pode ser última paragem,
pra outros é o além do Bojador.

Em Rio Preto, de noite, capivaras
degolam travestis, e moças mugem
enquanto cães realizam velhas taras.

Assassinado, um cisne é só penugem.
Esta outra face que a gente mascara
é menos purpurina e mais ferrugem.

A. F.


14/08/2018

Meus amigos


* Foto de Daido Moriyama


Sobre o tema amizade outros cantaram
a comunhão das almas. Mas eu não:
meus melhores amigos se mataram
 ficaram uns em decomposição.

Todos os meus amigos fracassaram,
não chegaram ao primeiro milhão.
Os filhos que tiveram não vingaram,
frutos podres de estranha geração.

Meus amigos, nunca eles se casaram,
nem fui eu a quebrar tal maldição.
Toda noite, os que não suicidaram

vêm à minha decrépita mansão
esquartejar a vida 
 acho, preparam
um monumento à Grande Depressão.

A. F.

01/08/2018

Das cartas extraviadas



Para onde vão as cartas extraviadas,
sempre perdidas, nunca encontradas?
O que dirão as cartas extraviadas
sobre esta vida ou vidas passadas?
Serão sonetos, odes ou baladas?
Linhas de amor ou ódio às amadas?
Tão mal escritas ou tão bem traçadas
filosofias ou contos de fadas?
Para onde vão as cartas extraviadas,
sempre perdidas, nunca encontradas?
Em que cruel fogueira são queimadas?
Em que porão escuro estão guardadas?
E por quem lidas? E por quem rasgadas?
O que dirão as cartas extraviadas?

A. F.
*foto minha

24/08/2014

Dois enterros


Meus pássaros não param de morrer. 
Esta manhã dois corpos recolhi
: um na esquina onde te perdi,
outro à janela em que me vi perder.

Duas rasas covas ternamente abri,
pois cada morto é parte do meu ser,
e como eu não soubesse o que dizer
um epitáfio a cada um escrevi.

Ao meu primeiro pássaro: Aqui jaz
um amador que, por perder uma asa,
dormita, agora, em ninhos abissais.

E ao meu segundo pássaro: Aqui jaz
a pomba branca que fugiu de casa
e não retorna nunca, nunca mais...

A. F.

* Foto: Natura Morta

21/09/2013

O autor desce aos infernos

 * Foto de Diane Arbus

Tal qual um esqueleto desmembrado,
o abismo dos teus olhos vou descendo.
Anjos nus vão imóveis ao meu lado —
é minha alma, algo pura, anoitecendo...

Onde foi que perdi meu brilho alado?
Em que parte do corpo fui perdendo
a fé e, feito flor, você, pecado,
nasceu, desabrochou e foi vivendo?

— Oh flor da minha vida, oh Razão
que guia meu calvário e é a igreja
onde fabricam céu e perdição!

Eu desço este abismo se deseja,
mas vou cantando baixo uma oração —
quem sabe Ele me ouça, Ele me veja.

A. F.