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17/09/2019

Blitz


Lembra, bb, aquela vez,
nós duas, tão suspeitas,
deitadas no asfalto...
Aquilo que vínhamos cultivando
em alta velocidade,
fora do carro devia parecer
tão perigoso
que estranho seria se qualquer viatura
não nos mandasse encostar,
que estranho seria
se nenhum policial imberbe
nos deitasse no asfalto...
Mas na revista minuciosa
que nos fizeram
não encontraram nada ilícito
com que nos acusar (apesar
de todos os indícios)
e tiveram, tristes meninos,
de nos deixar ir... nós que,
muito antes disso, já nos sentíamos
completamente livres...
E fomos, perigosíssimas,
até o motel mais próximo.

16/09/2019

Outra mulher alvejada

Você nunca pensou em tomar alvejante
enquanto lavava roupa. Até que pensa. Basta uma vez.
Você ficaria surpresa com o número de mulheres
que são encontradas ao lado do tanque, as pernas
em arco, a boca espumando, alvejadas
domesticamente. Você não sabia que lavar a roupa
podia ser fatal. Te ensinaram a tirar manchas, mas não
como identificá-las — se é molho, vinho ou sangue.
Lavar é verbo de guerra. Teu tanque, tua trincheira.
Você leva o alvejante pra perto da boca:
o hábito já disfarçou o cheiro, só lhe resta
conhecer o gosto. Não é tão ruim, você pensa,
os meninos ainda terão roupas limpas
pra resistir por mais duas semanas.

09/09/2019

Minha experiência com patins

Compraram meus patins foi na Avon
há tantos anos, nem era nascida.
Com eles deslizei e fui ao chão
vezes demais, tão só, tão distraída.

Se me ouviram chorar, foram os sons
dos patins em manobras suicidas.
E os momentos felizes passei com
os joelhos totalmente em carne viva.

Mas quando vi meninas no jardim
e quis andar, descalça, junta delas,
caí, quebrei as pernas. Era o fim.

Mamãe, aos pés da cama, hoje ela
me disse: Foi-se a idade dos patins.
Amanhã abriremos as fivelas.

30/05/2019

Ave Maria Sapatã


Maria Sapatã, Sapatã, Sapatã
De dia é Maria, de noite, Lesbiatã





As sapas tem pouca vida
real e mesmo nas novelas
são por vezes explodidas
dentro do shopping. Mas elas

vão vivendo como podem,
da forma que mais convém:
vez ou outra, quando fodem,
descarrilham méis e trens,

capotam carros na estrada,
derrubam aviões também
com suas rotas transviadas
para os clitóris do além.

De manhã são encontradas
nuas em quartos de hotéis,
docemente assassinadas
por obscuros quartéis,

entre garrafas vazias
e consolos de hortelã.
Não você: você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Mas Maria, as sapas, elas
nunca cansam de morrer.
Umas pulam da janela,
outras pulam de prazer.

Com seus vibradores voam
em banheiras ou chuveiros,
e seus corpos se amontoam
diariamente nos banheiros,

umas eletrocutadas,
outras se olhando no espelho
e não vendo nada. Nada
além de um ser de esguelho.

De manhã são encontradas
em decúbito dorsal
por suas fiéis empregadas
que usam Veja, soda e cal.

Mas Maria, as sapas, elas
morrem todo santo dia,
mesmo aquelas que são belas,
mesmo as filhas de Maria.

Morrem muito no cinema,
no teatro, nas revistas,
nos artigos, nos poemas
e no ginecologista;

morrem tomando cerveja
com as amigas no domingo,
morrem indo pra igreja,
morrem voltando do bingo.

De manhã são encontradas
em decúbito ventral,
secamente violadas
em manchetes de jornal,

entre as notícias do dia
e as promoções da Havan.
Não você. Você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Dizem que em média, Maria,
uma sapa é assassinada
trinta e três vezes ao dia.
Na avenida, na calçada,

no parque, na homilia,
no ônibus, no elevador
no almoço de família,
no twitter, no humor,

no uber, na padaria,
no colégio, no divã,
não você: você, Maria,
não é sapa, é sapatã.

Mas Maria, as sapas, elas
já estão por toda parte,
em seus quartos sem janela
vive um sol que brilha e arde.

Para seres que, sem gozo,
se vomitam e se enlamam,
há nada mais perigoso
que duas sapas que se amam.

Duas sapas que se amam
incomodam muita gente,
cada vez que elas se engancham
tomba fulminado um ente.

É por isso que as sapatas
são por vezes encontradas
desovadas, meio às matas,
quais aranhas enroscadas.

Duas sapas numa moto
desencadeiam aneurismas;
muitas sapas, quando em foco,
revoluções, cataclismas.

É por isso que as sapatas
aparecem sobrepostas
em suas casas (casamatas),
suicidadas, decompostas.

No aeroporto, quantas malas
levam sapas picotadas...
Basta olhar: em cada opala
há uma sapa esquartejada.

Não você. Você, Maria,
não se dá com morte vã.
Se de dia é Maria,
de noite é Lesbiatã.

AVE MARIA SAPATÃ,
metade sapa, sapata,
e outra metade Satã.
Você vive em quem te mata,

nos buracos mais profundos.
Nova mulher das cavernas,
você leva o fim do mundo
guardado por entre as pernas.

Nunca vão te perdoar
por não ter dado a luz,
que guardada, qual penhoar,
entre tuas pernas reluz.

Por jamais querer viver
à sombra de algum Jesus,
Sapatã, vai ser você
quem vão pregar numa cruz.

Eles te apedrejarão
em cada praça ou esquina,
mas pedras não chegarão
a sua alma luciferina.

Com frequência, Sapatã,
vão te estuprar. Tentarão
e no entanto virgem, sã,
em quem conhece a oração.

Uma oração nunca morre.
Depois do insano calvário,
virá sua glória, e ela escorre
pelos lábios de um rosário.


21/05/2019

Mulher confundida com nuvem




Essa mulher gostava
de pisar o chão,
mas muito cedo a botaram,
intocável, no céu
se aproveitando
da inconstância típica
da sua espécie.
Apontaram dedos
para a mulher de ar
e disseram eu vejo um rosto,
e disseram eu vejo um bicho,
e disseram eu vejo um sexo,
a mulher, leve, flutuava
em pleno domingo
se moldando aos caprichos
do olhar de quem a visse,
até que juntou-se a outra,
até que juntou-se a várias,
até que a mulher nublou
e choveu sobre toda a gente,
gotas da mulher prenderam-se
nos fios elétricos,
a mulher encheu bueiros,
inundou escritórios,
causou catástrofes
e alguns resfriados,
a mulher secou
junto às roupas do varal,
deu de beber a gatos
de cemitério,
engendrou arco-íris
em becos sinistros.
Os pais falam em fuga,
os jornais em assassinato,
mas as gramas da praça
conhecem a verdade.


20/08/2014

Caroline

Há qualquer coisa de triste
nessas moças que servem
café.

Encaro a mais feia, peço:
 Um café puro, por favor.
— Já trago, um momento.

(Risco num guardanapo:
Só os desesperados vão
a cafés p/ escrever.)

— Aqui está, mais alguma
coisa?
— Seu nome.
— Oi? Ah, é Caroline...

— Eu sei o seu segredo,
Ca-ro-li-ne, digo ao pé
do ouvido.

Caroline nunca mais
voltará ao trabalho.

A. F.

10/08/2014

A palavra puta



De repente
a palavra puta
ronda
a nossa casa,
arromba
a nossa porta,
zomba
a nossa vida.

De repente,
não mais que
de repente.

A. F.


26/07/2014

A menina que sonhava com fogo


Ela gostava de ficar horas no banheiro se olhando no espelho,
fuçando os 64 sexos que tinha, nunca usados.
Às vezes lhe dava uma vontade tremenda do que não sabia,
uma coceira que ia da alma aos biquinhos saltados dos peitos.

E de repente queria beijar a vó septuagenária de língua ou
chupar o pau do professor de química
ou estuprar o gato angorá da vizinha (ou a própria vizinha)
com uma caneta bic ponta grossa.

Mas não se escandalizem, senhoras & senhores: a menina
era do signo da borboleta.
As desse signo (donas de casa, em sua maioria) são para
sempre i-no-fen-si-vas...

A. F.

* Desenho:
Auguste Rodin, 1900