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29/09/2019

Dos temporais


Mamãe punha blusa e luvas
quando o tempo trovejava,
e eu sem saber se era a chuva
ou o meu pai que chegava...

E no apagão da rua
só o relâmpago alumiava:
mamãe no chão, vista turva,
lutando com a chuva brava...

Quando o temporal passava,
dia claro, eu encontrava
telhas, brincos no gramado.

E de cada tempestade,
nas estantes da orfandade,
guardo um souvenir nublado.

15/09/2014

Oxalá Vanda



[   ]

Comprei perfume,
cal importado —
mas não há lume
: cheiro a pecado.

Eu cheiro à dita
: a tre-pa-dei-ra
Vanda maldita.
(Ó macumbeira,

maldita prece,
dita n'umbanda,
que tu me deste!)

Não há lavanda
que me tire esse
cheiro de Vanda.

A. F.


07/08/2014

O conta/dor

Em criança ouvia contos
— contos para recontar.
Agora, crescido & tonto,
tudo o que faço é contar.

No escritório, o patrão:
— Conte, conte até cansar!
Conto o dia inteiro, então,
contos para não guardar...

Por tamanha contação
fim do mês recebo uns contos
que até dão para gastar.

Mas quando fecha o bar,
a noite é quem conta os contos
e são contos de matar...

A. F.

27/05/2014

Tango para a nossa morte




Então dois corpos
tangam na noite:
esses segundos,
quem os fabrica?

Por trás das peles
estranhos fogos
— deus e o diabo
num beijo eterno!

Esses segundos
são mais que séculos,
entanto escoam

por entre os sexos.
Depois do tango
não há mais tempo.

A. F.