03/04/2018

Alcançar o poema


Bobagem, não é difícil alcançar o poema,
agora mesmo se eu quisesse eu poderia
tocá-lo, seu rosto carmesim e se o toco?
será que desmancha? será que evola feito
pólen, feito séculos? o poema, essa flor
metafísica e tão física, quer enrabar o país,
o poema, essa coisa desmedida como o amo,
como posso prever sua respiração, a respiração
de um suicida que nunca há de matar-se, desses
que vivem eternamente e sentam ao nosso lado
na sala de espera, no ônibus, naquele dia
no metrô, no uber que leva a lugar algum só
vá seguindo moço sempre em frente que o
poema está comigo, está conosco, e no entanto
o perdemos pouco a pouco, acelere por favor,
o poema está ali, penso podíamos ser amigos,
quem sabe amantes e nos beijarmos sem pudor,
olha a cara dos passantes, como nos odeiam e
nos querem, querem comer-nos, nos matar, eu
que sou virgem, esta flor, mas não morremos,
somos praga, duas fragas que se querem (mas
há o mar), o poema é imortal, ele se salva e
a nós todos, os mundos sustentados no poema,
essa carcaça onde se senta um beija-flor,
vamos seguindo, posso prevê-lo mas nunca sei
o que fazer: será que abaixo as suas calças,
lambo em seguida todo seu corpo? posso eu
suportá-lo, seu longo osso, suas palavras
depreciativas? será que dizem tudo o que
podem, será que encantam, que asfixiam?
esse poema, seiva primeva, devo sorvê-la
até o caroço? será que é grosso? meu
educado poema, esse herói de calças jeans,
posso descer com ele às três da tarde, pedir
um suco, dividir um açaí? ou perguntar coisas
essenciais: quer minha nutella? sentar no
meu colo? chove amanhã? e Deus existe?
mas é São Paulo e ele segue, vai semovente
pela avenida, a gente ao lado indiferente,
e já está longe, aqui comigo, mais um poema
diluído nas enchentes, choventina, um mar de
gente às seis da tarde, hora em que as crianças
se perdem pra sempre, foram pra Disney,
foram estupradas, foram cortadas em
pedacinhos, extraviadas no caminho de casa,
pedem bala agora a qualquer um que passa,
viraram ramagens, paralelepípedos, xérox
escuros de rostos nos postes e olha só outro
poema perdido, procura-se ser lusco-fusco,
sete mil anos, sonhava frequentemente com
pássaros quebrando os vidros, invadindo a
casa, foi visto última vez na Rua Aurora com
um estranho pacote nas mãos (ou era um
pacote do Burguer King apenas), e como
teríamos salvado vidas, ido a igreja todo
domingo, mijado em lírios e mendigos, enfim
sido feliz sido feliz sido feliz sido feliz sido feliz.

A. F.

29/12/2017

Auto(psycho)grafia


O poeta é um pecador.
Peca tanto, e tão somente,
que tem de fingir licor
o sangue que traz nos dentes.

E os que leem o que escreve,
na bebida sentem bem 
até o anjo, quando bebe
aos demônios grita: Amém!

E assim, embriagados,
sem dor nem religião,
conduzimos nosso arado
sobre ossos do coração.

A. F.

21/04/2017

O sangue ao redor


Toda manhã
o mesmo impasse
 como estancar
o sangramento?
Dessa sangria
nasce teu dia.

Deixa que o sangue
siga seu fluxo,
deixa correr,
é sangue apenas,
e vermelhíssimo.

Deixa que sangre
e vá descendo
pela garganta,
em tua camisa
e na toalha
branca, branquíssima;
deixa que escoe
por entre os dedos,
que abra caminhos,
que ganhe a pia,
também os canos
são boas veias,
veias são canos
de carne ou plástico,
veias contínuas
que levam a mares
de sangue. O sangue,

se tu soubesses
que é por vertê-lo
ao barbear-se,
em finos cortes,
algumas gotas
diariamente,
e só por isso
que sobrevives,
— mas até quando?
até que um dia
já não mais tenhas
como conter
o humano gesto

e com a gilete
que faz a barba
toda manhã
para estar vivo,
você, irmão,
pobre maninho,
venha cortar
os próprios pulsos
num movimento
raro, preciso,
como tivesse
sido ensaiado
— e o ensaiou,
diariamente,
por toda a vida
e muito antes
de ter nascido.

A. F.

* Imagem: cena de O som ao redor 
(2013), de Kleber Mendonça Filho

21/03/2017

Onde os garotos brancos dançam




* Imagem: Kids,
Daido Moriyama

Garotos
de 14 e quinze anos
vagueiam pelas ruas
da cidade iluminada
à procura de
qualquer coisa
leve.

Reparem nesses garotos
de 14 e quinze anos
que não pensam casar e
ter filhos, dois.
Que não aspiram
viver depois dos
30.

Eles não são os primeiros da

classe, nem
os últimos. Seus rostos não
serão lembrados ou
esquecidos  sequer
os fitaram.

Eles não criaram nada, nem
criarão. Não serão médicos,
operários ou funcionários
públicos.
Seus pais estão mortos e 
seus avós são
velhos demais para
dançar.

Atrás da igrejinha pro
testante,
eles abaixam as calças e
trepam. Garotos de
14 e quinze anos.

A. F.