27/05/2013

17

Tenho que ir
 a noite convida-me
para dançar.
Levo no peito
(cravado no peito)
uma pequena faca.

Tenho que ir

 os pés já não podem
outros caminhos.

Tenho que ir

 o verbo faminto
me chama, me inflama.

Tenho que ir

sem preocupar-me com as caras
atônitas, tremendo de frio,

sem dar ouvidos

aos comentários
que me chamam louco.

Tenho que ir.

17 anos. 17 anos só pra isso.
Desculpa, mãe.

Hora de calçar os chinelos,

os meus chinelos

e de pijama

verde-limão
sair no frio.

A. F.


23/05/2013

O tonel encantado

Fui eu que dei o seu primeiro livro, uma edição bem surrada de O tonel encantado, de Beatrice Tanaka. Eu não era tão maior do que ela quando o li, encantado, pela primeira vez. Bia adorou, me pediu que o lesse de novo, e de novo... Tantas vezes li que já era eu parte da história, o próprio toneleiro a buscar sempre mais e mais. Quando fui visitá-la no hospital, tempos depois, ela estava bem forte. Conversamos muito, logo o tempo de visita acabou. Já ia embora quando ela me chamou; o livrinho nas mãos - amarelado, já sem capa...
– Leve; mas é nosso. Dias depois se foi, ser anjo no céu.

Hoje, passado anos, retorno novamente à nossa história. O final, como sempre, é como um soco seguido de um beijo: "Bang! O tonel estoura em mil pedacinhos."

André Foltran
~ Um dos vencedores do 1º Concurso
de Contos Brincar de Ler (maio/2013).

 * Ilustração de Beatrice Tanaka

01/05/2013

Maio

Nobre dama na janela
me observa de soslaio.
Quem é ela? Quem é ela

na janela? É Maio! é Maio!
Ai, meu Deus, e como é bela!
Dela sou pobre lacaio...

Ai, que boca! a boca dela
mata mais que tiro, raio...
Nesse abismo eu caio, eu caio!

Quero amar somente ela!
Pois que tudo antes de Maio
foi passado, mero ensaio...


* Dama na Janela (Gravura/Arte Francesa)                              A. F.