21/04/2017

O sangue ao redor


Toda manhã
o mesmo impasse
 como estancar
o sangramento?
Dessa sangria,
nasce teu dia.

Deixa que o sangue
siga seu fluxo,
deixa correr,
é sangue apenas,
e vermelhíssimo.

Deixa que sangre
e vá descendo
pela garganta,
em tua camisa
e na toalha
branca, branquíssima;
deixa que escoe
por entre os dedos,
que abra caminhos,
que ganhe a pia,
também os canos
são boas veias,
veias são canos
de carne ou plástico,
veias contínuas
que levam a mares
de sangue. O sangue,

se tu soubesses
que é por vertê-lo
ao barbear-se,
em finos cortes,
algumas gotas
diariamente,
e só por isso
que sobrevives,
— mas até quando?
até que um dia
já não mais tenhas
como conter
o humano gesto

e com a gilete
que faz a barba
toda manhã
para estar vivo,
você, irmão,
pobre maninho,
venha cortar
os próprios pulsos
num movimento
raro, preciso,
como tivesse
sido ensaiado
— e o ensaiou,
diariamente,
por toda a vida
e muito antes
de ter nascido.

A. F.

* Imagem: cena de O som ao redor 
(2013), de Kleber Mendonça Filho