26/10/2013

Rondó das namoradas


Minhas namoradas
andam me traindo.
Eu aqui, demente,
apontando estrelas...
e elas lá, sorrindo!
Minhas namoradas
andam me traindo.

Tenho de matar
minhas namoradas,
sassiná-las todas
em poemas feios.
Minhas namoradas
tenho de matá-las
lentamente e sempre.

Minhas namoradas,
essas vagabundas,
fingem que não sabem
(ou pior: não sabem)
meus pobres enigmas.
Os meus inimigos,
como estão se rindo...

Minhas namoradas
andam me traindo.
Eu aqui, demente...
elas lá, sorrindo!
Ai, que versos feios
andam me saindo...
Meus pobres enigmas.

Minhas namoradas,
essas vagabundas,
tenho de matá-las,
lentamente e sempre
tenho de matá-las,
antes que me matem
— eu e meus enigmas.

A. F.

20/10/2013

20/10/13

Um navio rompe os séculos
— outro navio negreiro... (

Pobre de nós, escravos...
Pobre de nós, poetas!...)

A. F.

12/10/2013

Luz na rua

A luz enfim chegou à Rua Pau Brasil!

Os pais podem ficar tranquilizados,

a Associação de Moradores assegura:
NÃO MAIS anjos de rua furtarão
a virgindade das moças
na saída da missa.

A Rua Pau Brasil é toda luz

nos mistérios que a revestem.
Não há sombra que possa
ante a clareza dos postes...

A luz chegou com suas transgressões!

Os rapazes em desespero se perguntam:
— Onde vamos esconder agora
nossos pobres corações selvagens?

— Pobre de nós, suspiram as virgens...
nuas, em seus quartinhos escuros...
sem fé, coitadinhas, nem álibi...

A. F.

08/10/2013

03/10/2013

O Enforcado


No ano da Criação
um querubim sem pecado
 não se soube o motivo 
enforcou-se
na árvore da vida.

Eva, ao entender a metáfora,
abriu os olhos de Adão.
E Adão, de posse da visão,
quis ser deus e fornicar com Eva.
Por isso forçaram
os portões do Éden
e foram os dois, poetas,
abrir bordéis
e fundar filosofias.

Deus, para abafar o escândalo,
inventou demônios, espalhou profetas
e mandou cremar o corpo do suicida
e jogar suas cinzas nas águas d'Iemanjá.

Que ninguém nunca soubesse
por que suicidou
um querubim...


A. F.