21/06/2013

Solstício de inverno

Quiseram certa vez construir um Brasil...
mas o ergueram muito acima de nós.
Tanto que hoje já não podemos alcançá-lo.

Uma torre está sendo erguida nas ruas.
Não nos entendemos, hablamos tantas lenguas...
Mas queremos todos chegar ao Brasil
(ou a algum lugar próximo
do paraíso).

O sangue escorrendo nas vias,
por trás das igrejas,
no canto dos olhos
é todo um mesmo sangue,
um sangue sujo, um sangue verde,
verde e amarelo,
brasileiro.

É tempo de união, meus irmãos.
É tempo de guerra
e os adoráveis suicidas
pularão todos juntos.

Trazemos nas mãos cartazes em branco
e coquetel molotov
nas mochilas.
Somos a rebelião
acontecendo ao vivo
para 123 países.
Hora de brincar!

Queimemos os carros, irmãos.
Os carros e os velhos
(sobretudo os velhos).
De poetas do facebook
a democratas!

Vamos enterrar nossos avós paraplégicos
que nos ensinaram covardemente a trancar as portas
e sussurrar no escuro
a oração antiga.

Vamos derrubar o Brasil, meus irmãos!
(Pacificamente, como se mata
um boi.)

O Brasil é muito pouco para nós.

A. F.

20/06/2013

Triolé dos Afogados


Nademos! Sim! Mas para onde?
Se se afogaram as estradas...
Se o luto corta o horizonte...
Nademos! Sim! Mas para onde?
Se já passou o último bonde...
Se as pernas já estão cansadas...
Se se afogaram as estradas...
Nademos! Sim! Mas para onde?

A. F.

* Desenho: Luminoso Afogado
de Rosa Carvalho (cores
originais invertidas)

06/06/2013

Canção Marítima



Nós, os navegantes
da contra maré,
aos olhos da massa
andamos em ré.

Em ré seguem eles
as linhas traçadas.
Não cabem nos mapas
ilhas inventadas...

Na praia de ossos
encontram a paz.
São livros fechados
na beira do cais...

Tão jovens infantes
seguimos de pé,
nós, os navegantes
da contra maré.

Nós, os fabricantes
da contra razão,
negamos cantar
a mesma canção.

Nós, os navegantes
da contra maré,
trazemos no passo
um novo balé.

Nós, os navegantes
 ou vou eu sozinho?
buscando, já louco,
alguém no caminho...

A. F.

(35 x 25 cm) de  Daniloz