29/08/2013

Manhã, tarde e noite


Os homens estão sentados,
a alma fugiu dos homens.
Calados estão, calados...
(Por dentro sussurram nomes.)

Os homens estão cansados,
o corpo venceu os homens.
Parados estão, parados
enquanto urubus os comem...

Os homens estão deitados,
a noite cobriu os homens.
(Os olhos se tornam fado
fadado aos lobisomens...)


A. F.

* Desenho de
Eduardo Flores

27/08/2013

Luto


O meu luto é por você
que não morreu na guerra
mas em cuja a alma dormem
enormes cicatrizes...

A. F.

26/08/2013

Quarto dos fundos


Sereias louras invadem o quarto...
Sou todo mar ou resta-me um quarto?
Acordo e dou com a cara no telhado 
por que, meu Deus, não morri afogado?

Sereias louras dizem ao pé do ouvido
coisas que eu queria ter olvido...
Minhas verdades, naus submergidas...
O meu baú de orações antigas...

Polvos gigantes, cavalos marinhos...
Serão poemas ou serão golfinhos?
Sereias louras  ah, com elas luto!
Tubarões negros já ensaiam luto...


A. F.

* Desenho de Daniloz

20/08/2013

Sete conselhos p/ Gisele

À Gisele Roberta Ignan

1
Nunca revele teu verdadeiro nome, Gisele.
Se te perguntarem, minta:
– Sou Gisele...

2
Gisele, Gisele... Pare
de carregar o mundo!
Vai te dar dor nas costas...

3
As flores de abril, Gisele,
não são as mais belas.
Repare as de maio.

4
E não me saia pela manhã
sem protetor, dona Gisele!
Recomendo um fator 60
mas Deus também serve.

5
Gisele, o tempo é
ligeiro, se apresse...

6
Mas, acalme-se: não
tão rápido assim!

7
Se te apetece morrer,
Gisele, morra baixinho...
- E que seja de amor!

Só se morre de amor...

A. F.

~ Selecionado no 2° Concurso Literário Big 
Time Editora, a ser publicado em antologia.

14/08/2013

14/08/13

Nos dias normais
oscilo entre o inferno
e o tédio.

Mas há um retrato,
feito de foice,
vindo de frente
com o para-brisa.

Há um retrato,
de corpo & alma,
manchando tudo
de cana & sangue.

Há um retrato
pintando o céu
de cores débeis
pois impossíveis.

Estenda as mãos, mulher... já pode tocá-lo!
Oh, que manhã! Que momento!

Só vê Deus quem encara
os olhos da morte...


(Só
se vê Deus uma vez.)

A. F.

04/08/2013

Onde cantam as cotovias

1.

Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...
Não há drogas, não há vida:
nunca houve um suicida...

Pus os meus barcos no mar
mas não querem navegar...
Tenho moinhos de vento
mas eles giram tão lento...

Nas ruas, todas tão planas,
passam manhãs cotidianas.
Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...

2.

Onde cantam as cotovias
cantam outros passarinhos
canções de todos os dias...

Quando acordo no meu ninho
já cansado de morrer
não há sangue, nem vizinho

a quem possa recorrer.
 E esse silêncio lá fora
que não me deixa escrever!

Como eu queria ir embora,
voltar pras minhas orgias,
e me esquecer da aurora
onde cantam as cotovias...
   
A. F.

~ 1º colocado no Desafio de Janeiro realizado
pelo blog Olaria das Letras. (Tema Livre.)