28/12/2012

Esses ridículos poemas pueris

Não é por ninguém
que eu continuo escrevendo
esses ridículos poemas pueris.

Acontece que o verbo (um
verbo de luz) está
cá dentro, vivo
ou morto está cá dentro
e não quer sair...
E isso me irrita, sabe...
Isso me irrita tanto...

Mas há esperança (es-
pe-ran-ça: uma palavra chata)
por isso escrevo.

E é só por isso, eu juro.

A. F.

17/12/2012

Post Mortem

O velho ator morreu louco. Foi a camareira do período da manhã, dona Georgina, que o encontrou enforcado na cortina  espessa cortina amarela do 34°.
 Uma fatalidade... lamentou dona Georgina, quase amiga do ator, que o acompanhava, às vezes, em seus tão solitários espetáculos.
* * *
Ainda hoje, dizem os vizinhos, o espírito do velho ator, em plena posse de sua técnica, atua em extensos monólogos, no mesmo quarto  o 34° , o seu maior e mais ousado papel: o de si mesmo.

A. F. 



Miniconto vencedor do "Concurso

Cultural Jorge Cooper" promovido
pela editora Imprensa Oficial.
~
O miniconto é uma interpretação livre
dos poemas EsquecimentoPoema Poema
Triségimo Quarto, todos de Jorge Cooper.

12/12/2012

Conversa íntima



 O que é você? pergunta
a moça ao descobrir
o segredo de si.

O segredo revela:

 Eu sou a flor sedenta
que brota dos teus meios
e tudo, antes do pó
acabará em mim


André Foltran

14/11/2012

Quando as portas fecham

Quando as portas fecham
e não há aurora
fico como tonto

ando feito louco

pelo bar dos dias
vai-se o copo, as
horas...

e não há aurora.


 Aurora,

como te quero agora! Aurora
da minha vida... Carne
em minha labareda...

Mas aurora não quer nem saber

e me deixa na porta e me deixa na mão
feito cão sem casa
a desovar auroras
pelo mar das pias...

A. F.


~ Poema selecionado no "Prêmio Cultural Poesias de Amor"
para compor a antologia "O Livro do Amor" (AAL — 2012).

12/11/2012

Manhã no bar


     - Sabe,
          patrão,
     tem um corpo
          azul, no chão,
     virado de bruços...

          - Ora, mande limpar
     que o bar não pode parar!

08/10/2012

Oco

Não sei se o que falo é o eco
ou se é o eco
que fala em mim










Publicado na revista Um conto
(edição 14) ~ Novembro de 2012

20/09/2012

Anunciação

De dentro de mim
brotam crianças
natimortas

Já é primavera
na maioria
das casas










Publicado na revista Um conto
(edição 14) ~ Novembro de 2012

18/09/2012

Fragmentada

Casa amarela, amarela e azul
Vento do norte, do norte e do sul
Moça bonita, bonita e malvada
Branca de neve, de neve e de nada

A. F.

09/09/2012

Depoimento lunar

     nas mil
     e uma noites
     mil e uma vezes
               me mataram

mil e uma vezes eu voltei...

06/09/2012

Não quero-quero

Não quero-quero ter de dona a poesia
tampouco quero-quero dominá-la.

Não quero-quero a escravidão da língua.
Não quero-quero carregar bandeira.
Não quero-quero ser poeta.
Não quero-quero da sina
fazer profissão.

Não quero-
quero.

Só quero-quero ser livre!
Só quero-quero ser solto!
como o doce quero-quero da manhã
que esta manhã não veio...
Desenho de galho, John Ruskin.
[Ruskin´s Drawings, Asmolean Museum Oxford, 1997, p. 39]

Piadinha escolar

 Agora me diga, Joãozinho, um prato típico do Brasil.
 O prato vazio, fessora...

A. F.

29/08/2012

Haikai de padaria


O sol não veio.
Na mesa sonhos
partidos ao meio...


Um dos 20 poemas selecionados no
II Concurso de Poesia Urbana - 2012

26/08/2012

Morrer na vilazinha

Como um poema que se fez qualquer, em chão de gentes,
estava bela a tarde e os pássaros inda cantavam sem motivo.
Inda as árvores revoltosas se tremiam contra o vento
o vento que veio do leste, vento-leste que trouxe a discórdia
das árvores...


18/08/2012

Purgatório

antes ter despido aquele terno...
antes ter sorvido mais do mel...

e quantas negras mais
pra eu queimar no inferno?...
e quantas rezas mais
pra eu dormir no céu?...

12/08/2012

Pai,


Por que deixou eu girar na ciranda?
Agora eu sou esta figura torta...
Que vai fazer, me plantar na tua horta?
Comprar mentiras em qualquer quitanda?

De muito gorda a porca já não anda.
De muito usada a faca já não corta.*
De que me vale, pai, abrir a porta,
se nesta casa minha voz não manda?

Falemos hoje de mais coisas sérias,
nos esqueçamos, pai, hoje, das putas;
falemos hoje das tuas falsas lutas,

falemos hoje só de suas misérias.
E que esta tarde ou qualquer tarde seja,
eu te revele e então você me veja...

*  "Cálice", Chico Buarque e Gilberto Gil ~

05/08/2012

Aniversário

A hora do bolo
é uma carnificina: os dentes
brancos pretos amarelos
me dilaceram, sem pena...
e sentem pena, depois...

Junto com o bolo
engulo o amor, o terror
e a paz... Junto com o bolo
de chocolate (meio) amargo
engulo a verdade
abafada... Junto com o bolo
me divido, me reparto e parto...
e em cada pratinho de plástico
alguém, em silêncio, me devora...

(Ai Deus...
Não tenho mais onde me sentar...
em cada banco já há
um casal que se ama...)

O domingo é pálido
mas não deixa de ser
um lindo domingo em família...

A. F.

Hoje este caderno faz um ano
(e minha avó 67!)
Parabéns? ~

Haikai da última lembrança

(pra que Vô Zé não caia
no meu esquecimento)

Meu vô caminhando,
atrás dele uma sombra...
É verão, eu acho.

02/08/2012

Quarto 69

Espere...
Com as mãos terminou de arrancar a criança asquerosa que era cuspida do seu ventre. O parceiro, da cama, ouviu a descarga.
Pronto.

Puderam, então, seguir com a transa...
Publicado na revista minicontos.com.br,
antiga Veredas, no dia 28/12/2012.

31/07/2012

Dos altos impostos brasileiros


Não se paga só pelo produto, paga-se pela qualidade, tecnologia, gasolina do deputado, conta do vereador no mercadinho...
~
Frase vencedora do Concurso Cultural
"Um Tablet Por Dia" - Jornal Brasil247

29/07/2012

Dos caminhos

1 ~ O caminho mais seguro é o que todos temem passar.
2 ~ O pior caminho a seguir, é não seguir por nenhum.


27/07/2012

1973-1990

A ~ Asas cortadas: “Não podeis voar!”
R ~ Ruas fechadas: “Não podeis correr!”
P ~ Pode uma boca calar sem morrer?
I  ~ Ilhas se formam às ordens do ar:
L ~ “Lançai os livros, pro fogo o saber!”
L ~ Linhas, tecidos... Que podem dizer?
E ~ Estrelas sem luz ousaram brilhar;
R ~ Ruas fechadas não puderam conter -
A ~ Aves, sem asas, em coro a cantar:
S ~ “Silenciar é bem mais que morrer...”


(Acróstico às mulheres que
buscaram sua própria voz
quando seu país a perdeu.)
~
2° lugar no 2° Desafio Escrita Criativa
- Blog Concursos Literários
~
Vencedor, na categoria "Acróstico",
do Concurso Literário Trajes Poéticos 2013

25/07/2012

Poeminho

Reparei
que todo sabiá
que é de gaiola

pela manhã
antes de tudo

canta a Canção
do exílio.

~ Publicado na antologia "Mil
Poemas Para Gonçalves Dias"

17/07/2012

Na morada azul

Cruzei os dedos,
meus belos dedos quebrados.
Minha alma sussurrou qualquer coisa
amordaçada...

Lágrimas
não atravessaram as costuras...
Os porcos corriam agitados
e era normal a agitação dos porcos.

A. F.

11/07/2012

Enquadrada


Te vi pregada na parede...
(igual tu, ninguém mais era)
de ti fizeram pobre quadro...

Era tu, agora, paisagem mera...
mero objeto de enfeite
 tua pele, só pintura era...

Te vi: seus olhos lá, inda molhados...

os olhos crus que o pintor lhe dera.

A. F.

10/07/2012

Crime e castigo

Olhando para o reboco recém feito na parede a bruxa ainda chorava o gato - o gato que ela amava como filho (e que emparedou, sem pena, ainda vivo, como mãe que castiga).
Me desculpe, Lusbel, me desculpe...
Lembrou do gato em outros séculos, feliz a andar pela casa, e chorou mais um pouco. Depois enxugou as lágrimas e continuou firme:
– Mas a culpa foi toda sua! Já tinha avisado que não queria te ver falando na frente dos convidados...



2° lugar no 1° Desafio Escrita Criativa
- Blog Concursos Literários

15/06/2012

Reconciliação

naquela tarde
sem nem ter reparado
ela devolveu a lua
ao céu de onde tinha roubado



Selecionado no 2° TOC 140 -
"Cem melhores poemas do twitter"

31/05/2012

No País do Carnaval


No meio do caminho tinha uma camisinha
tinha uma camisinha no meio do caminho
tinha uma camisinha
no meio do caminho tinha uma camisinha.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma camisinha
tinha uma camisinha no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma camisinha.

                                                                                         A. F.

04/05/2012

Não importa

Não importa o que diga sobre os anjos, não importa o que saiba sobre a Bíblia... A Deus, mais vale um ateu justo, que um crente mentiroso.


03/05/2012

Tarde da noite

Tarde da noite
Uma porta foi fechada

Gato pulou do telhado
Serafim mudou de lado
José entrou na casa errada

Tarde da noite
Coisa minha foi roubada

04/04/2012

aquele ser


aquele ser sem gosto
aquele ser sem jeito
aquele ser que dorme
sobre teu nobre leito

aquele ser sem gosto
aquele ser sem cura
aquele ser no encosto
aquela alma escura

aquele ser sem gosto
aquele ser vazio
aquele ser sem rosto
que todo homem viu

aquele ser sem gosto
aquele ser sem nome
aquele ser que come
e não sente o gosto

A. F.


~ Selecionado no Prêmio Valdeck Almeida de Jesus - 2012 e publicado em antologia.
~ Publicado na 36° edição da revista Benfazeja.
~ Selecionado no concurso Poesia Todo Dia e publicado em antologia.

01/03/2012

De tarde

Este barulho
não é o das horas.
O que escorre de mim
nem de longe é sangue.
A poesia não existe.
Nada existe.

Só esta tarde existe.

Em mim há dois seres
e eu não sou nenhum deles.
Queria morrer cantando...
Não quero mais! soube que a morte
ainda não é o fim.
É querer muito só o silêncio desta tarde?
Nem quero mais...

27/02/2012

Não dá mais

Não dá mais pra brincar de ser criança...
Não dá mais pra brincar com esta cidade.
Que a cidade é grande e logo cansa
de fingir — de fingir que é de verdade.

24/02/2012

Fundação


Mais vale um só tijolo edificado sobre os alicerces da verdade,
que um império construído em mentiras.

23/02/2012

Flores

Flores, flores...
estranho como fui dormir
e não havia flores...
Agora, elas aqui
parecem brotar do meu corpo...

Estranho dormir vivo
- acordar
subitamente morto...


André Foltran
Publicado no Livro Diário do Escritor 2013.