21/09/2013

Descendo


Tal qual um esqueleto desmembrado
o abismo dos teus olhos vou descendo.
Anjos nus vão imóveis ao meu lado —
é minha alma, algo pura, anoitecendo...

Onde foi que perdi meu brilho alado?
Em que parte do corpo fui perdendo
a fé e, feito flor, oh tu, pecado
nasceu, desabrochou e foi vivendo?

— Oh flor da minha vida, oh Razão
que guia meu calvário e é a igreja
onde fabricam céu e perdição!

Eu desço este abismo se desejas,
mas vou cantando baixo uma oração —
quem sabe Deus me ouça, Deus me veja.

A. F.


5 comentários:

  1. Belo demais para dizer alguma coisa!
    Li e reli André, você é como nós dizemos em Portugal; bestial!
    Perfeito.Adorei!
    xx

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  2. Só consigo dizer/escrever uma única palavra: Esplêndido.

    Obrigado pela visita e comentários, André!
    Abraços

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  3. Belíssimo o poema! Eu diria belíssimo soneto. Com laivos de um romantismo, aprés le temps. Aliás, lembra o Anjo Caído. Apenas lembra. É outra a sua linguagem.
    Grande abraço,

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  4. O soneto é uma linguagem desafiadora, sua forma não impede inovação porém, o que é amplamente alcançado aqui. Ritmo, conteúdo e arte! Um jovem poeta a se firmar no fazer poético! Parabéns!

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