01/01/2014

O primeiro poema do ano

O primeiro poema do ano
deve ser escrito
com os pés no mar.

Não deve ter nada do sangue
dos meninos degolados
em Belém. Nem da fúria
da curiosa chuva
que acabou com a festa.

O primeiro poema do ano
não pode ser como o tiro
que acertou meu pai, 

nem como o beijo
que afogou H.
neste mar que agora
tem os meus dois pés.

O primeiro poema do ano
melhor seria nem escrevê-lo,
melhor seria poupá-lo
para sempre...

No fim da rua há uma casa
onde premeditam-se
todas as mortes. Por isso,
quando encontrarem os corpos na areia
brancos e solitários como a noite,
não culpem o garoto, não culpem...

O primeiro poema do ano
deve ser o último.

A. F.

28/12/2013

Das proibições (1)



Se a placa diz: PROIBIDO PISAR NA GRAMA...
Como, então, criar raízes?

A. F.

* Foto: Proibido pisar na
grama (acervo pessoal)

13/12/2013

15/11/2013

A um passarinho

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

Vinícius de Moraes
Volta passarinho,
pro meu botequim.
Volta, volta, volta:
volta para mim!
Inda levo a marca
mesma de Caim.
Não, não sou poeta
nem falo latim...
mas per omnia saecula
 até os confins
beberei poesia
em copos de gim.

A. F.