13/08/2014

Cinco tercetos de guerra


I - Pacífico

Toda paz
é um indício
de guerra.


II - Éden

Trocaram as pombas
— terror de inverno! — por
revoada de bombas?


III - Hecatombe

Do céu de Hiroshima
caem, feito anjos,
pássaros em chamas


IV - Chumbo

Soldadinhos mortos.
Meninas — mães palestinas 
recolhem os corpos.


V - Tristeto

Estou em paz, risco um poema
... Enquanto isso meus irmãos
tombam em combate.


A. F.

1º colocado no VIIIº Concurso Poesiarte (2014)

10/08/2014

A palavra puta



De repente
a palavra puta
ronda
a nossa casa,
arromba
a nossa porta,
zomba
a nossa vida.

De repente,
não mais que
de repente.

A. F.


07/08/2014

O conta/dor

Em criança ouvia contos
— contos para recontar.
Agora, crescido & tonto,
tudo o que faço é contar.

No escritório, o patrão:
— Conte, conte até cansar!
Conto o dia inteiro, então,
contos para não guardar...

Por tamanha contação
fim do mês recebo uns contos
que até dão para gastar.

Mas quando fecha o bar,
a noite é quem conta os contos
e são contos de matar...

A. F.

29/07/2014

A tempestade



[ 1 ]

A festa não tinha

hora para acabar.

Estávamos com tanta sede

que tomamos
direto na veia
a substância da nossa
liberdade.

E como estivéssemos
apaixonados
dançamos o ritmo
da nossa geração
tão distraídos...

E como estivéssemos
embriagados
lançamos facas
uns nos outros
sem medo algum
de nos cortar...

[ 2 ]

Mas muito tarde

os cães da noite
anunciaram
a tempestade

e não deu tempo

de retirar
todos os corpos
da varanda.

— Como explicar

os corpos
na varanda?

— E todo aquele
tédio
nos casacos?

nos perguntávamos

como estranhos
de uma mesma
festa.

[ 3 ]

Arranhei tuas portas

na tempestade
desesperado

mas você não tinha

nenhum adágio
ensolarado
o bastante.

— A tempestade
tanto acaba esta noite
como acaba
nunca, baby, disse
um penetra na
festa.

E isto, por enquanto,
é tudo o que temos
de mais bonito.

A. F.

* Sigur Rós - Fjögur píanó
por Alma Har'el