10/08/2014

A palavra puta



De repente
a palavra puta
ronda
a nossa casa,
arromba
a nossa porta,
zomba
a nossa vida.

De repente,
não mais que
de repente.

A. F.


07/08/2014

O conta/dor

Em criança ouvia contos
— contos para recontar.
Agora, crescido & tonto,
tudo o que faço é contar.

No escritório, o patrão:
— Conte, conte até cansar!
Conto o dia inteiro, então,
contos para não guardar...

Por tamanha contação
fim do mês recebo uns contos
que até dão para gastar.

Mas quando fecha o bar,
a noite é quem conta os contos
e são contos de matar...

A. F.

29/07/2014

A tempestade



[ 1 ]

A festa não tinha

hora para acabar.

Estávamos com tanta sede

que tomamos
direto na veia
a substância da nossa
liberdade.

E como estivéssemos
apaixonados
dançamos o ritmo
da nossa geração
tão distraídos...

E como estivéssemos
embriagados
lançamos facas
uns nos outros
sem medo algum
de nos cortar...

[ 2 ]

Mas muito tarde

os cães da noite
anunciaram
a tempestade

e não deu tempo

de retirar
todos os corpos
da varanda.

— Como explicar

os corpos
na varanda?

— E todo aquele
tédio
nos casacos?

nos perguntávamos

como estranhos
de uma mesma
festa.

[ 3 ]

Arranhei tuas portas

na tempestade
desesperado

mas você não tinha

nenhum adágio
ensolarado
o bastante.

— A tempestade
tanto acaba esta noite
como acaba
nunca, baby, disse
um penetra na
festa.

E isto, por enquanto,
é tudo o que temos
de mais bonito.

A. F.

* Sigur Rós - Fjögur píanó
por Alma Har'el

26/07/2014

A menina que sonhava com fogo


Ela gostava de ficar horas no banheiro se olhando no espelho,
fuçando os 64 sexos que tinha, nunca usados.
Às vezes lhe dava uma vontade tremenda do que não sabia,
uma coceira que ia da alma aos biquinhos saltados dos peitos.

E de repente queria beijar a vó septuagenária de língua ou
chupar o pau do professor de química
ou estuprar o gato angorá da vizinha (ou a própria vizinha)
com uma caneta bic ponta grossa.

Mas não se escandalizem, senhoras & senhores: a menina
era do signo da borboleta.
As desse signo (donas de casa, em sua maioria) são para
sempre i-no-fen-si-vas...

A. F.

* Desenho:
Auguste Rodin, 1900