09/01/2015

O foxtrote dos desiludidos




Como o salão é todo espelhado,
uma hora você acaba se enxergando
severo, severo demais.
Você sabe que perdeu no jogo
qualquer coisa que te fará muita falta,
mas a banda continua, inflexível,
porque o show é bem maior que a vida.

É a primeira vez que você dança
o foxtrote dos desiludidos,
mas a dama não vai perdoar
o seu menor deslize.
Você dança, algo entorpecido,
e pensa em quanto ainda falta
para a hora do embargo total.
Mas a banda continua, inflexível...
zomba de tua desjuventude.

A dama quer tentar aquele giro
que você se esqueceu de ensaiar.
— Hoje você tem dezenove, ela diz,
amanhã terá trinta. A temporada
de ensaios it's over. E rindo:
Todas as formas de suicídio, darling,
resultaram/resultarão inúteis.

Você ri também (em todos os espelhos
suas mãos espalmadas contra o tempo).
Mas a banda continua, inflexível,
enquanto a dama desliza (e com que
facilidade, e com que doçura) para
os braços de um cara mais jovem.

A. F.

7 comentários:

  1. Como sempre, um poema muito inspirado. Parabéns, você tem aqui uma admiradora.
    Abraços e siga sempre com essa força e seu lema de lutar contra o tédio, isso é muito importante!

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  2. Tua poesia é excelente! E tem um não sei quê de teatral, de encenação que não deixa de ser real. O show ofusca por vezes a vida isso é certo.
    xx

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  3. Deslizes raramente são perdoados... e esse é o lado cruel do amor. Um abraço!

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